Internacional 8 novembro 2026 7 min de leitura

Matías Lucuix: «É injusto caracterizarem a Argentina desta maneira. Sempre competimos com lealdade»

A Argentina conquistou o terceiro lugar da Finalíssima 2026, depois de vencer Portugal por 3-1, na Arena Niterói. Na conferência de imprensa, Matías Lucuix valorizou a capacidade de superação dos seus jogadores e o processo de renovação da seleção argentina. Mas foi a discussão sobre a agressividade física, levantada após o confronto com o Brasil, que motivou a resposta mais contundente do selecionador, que considerou injusta a imagem transmitida da sua equipa e defendeu a lealdade competitiva dos seus internacionais.

Depois da eliminação nas grandes penalidades diante do Brasil, a Argentina respondeu com uma vitória sobre Portugal, encerrando a competição no terceiro lugar.

Para Lucuix, a medalha representa mais um passo no desenvolvimento de um grupo em renovação, que continua a demonstrar capacidade para competir diante das grandes potências mundiais.

O treinador abordou ainda a exigência física e emocional da competição, mas reservou uma parte importante da conferência para responder às críticas dirigidas ao comportamento argentino, particularmente no clássico sul-americano.

«Não foi o nosso melhor jogo, mas demonstrámos capacidade para sofrer»

No balanço da participação argentina, Lucuix destacou a satisfação pelo terceiro lugar, apesar da frustração de não disputar a final.

«Não só pela vitória, mas também pelo torneio que realizámos. A realidade é que, para além dos penáltis contra o Brasil, não conseguimos jogar o encontro que queríamos, que era a final. Mas estou contente por conseguirmos o terceiro lugar, diante de uma enorme seleção como Portugal.»

O selecionador reconheceu que a exibição diante da equipa de Jorge Braz não foi a melhor da Argentina, mas valorizou a resposta defensiva.

«Seguramente não foi o nosso melhor jogo, mas, do lado defensivo, que é aquilo que nos caracteriza, a forma de sofrer e essa capacidade de nos superarmos constantemente, numa competição em que praticamente não tivemos descanso, tanto a nível mental como físico, os jogadores deram um passo em frente.»

«Estamos numa renovação muito importante»

Lucuix considerou positivo o percurso realizado ao longo de 2026 e destacou a importância de enfrentar regularmente seleções do primeiro plano internacional.

«Acho que todo este ano foi positivo para nós. Estamos numa renovação muito importante e cada torneio em que podemos enfrentar os melhores, pelo menos para mim, é algo de que gosto muito, porque nos ajuda a crescer e permite-nos medir forças com as grandes potências.»

A oportunidade de competir com Brasil e Portugal representou, por isso, uma experiência importante para o desenvolvimento do grupo.

«Jogámos contra o Brasil e contra Portugal, que são duas enormes seleções. Pensando no que vem a seguir, isto é muito importante e também nos ajuda a continuar a crescer e a melhorar em vários aspetos, porque o próximo ano também será muito importante.»

«É injusto que se caracterize a Argentina desta maneira»

A questão da agressividade física, particularmente discutida depois da meia-final entre Brasil e Argentina, provocou uma reação firme do selecionador.

Lucuix recusou que a sua equipa seja caracterizada como excessivamente agressiva e lembrou episódios de confrontos anteriores para defender que a intensidade física não é exclusiva dos argentinos.

«É um clássico da América do Sul, joga-se assim. Não queremos que nos caracterizem dessa maneira, porque acho que é injusto.»

O treinador recordou duas situações que, na sua perspetiva, também mereciam ter sido analisadas.

«Na final do Mundial, Pito deveria ter sido expulso por uma ação duríssima. Na final da Copa América, Arthur quase partiu o tornozelo a um jogador nosso. Nós não saímos a fazer declarações. Nunca foi assim.»

Lucuix insistiu naquilo que considera ser a verdadeira identidade da seleção argentina.

«Nunca falámos fora do campo. Atuámos dentro do campo. Acho muito injusto aquilo que se está a dizer da Argentina, porque não merece.»

«A Argentina demonstrou o seu valor durante dez anos»

O selecionador defendeu que o percurso internacional da Argentina deveria pesar mais na avaliação da equipa do que as críticas sobre a intensidade física.

«Acho que sempre fomos grandes competidores. Ao longo destes últimos dez anos disputámos três finais consecutivas de Campeonatos do Mundo, jogámos muitas finais da Copa América e as nossas seleções jovens também conquistaram títulos.»

Para Lucuix, a trajetória da Argentina demonstra uma cultura competitiva que vai muito além da componente física.

«Parece-me muito injusta esta imagem que se está a transmitir mundialmente. Mas vem de um só lado, não vem de todo o mundo.»

O treinador voltou a sublinhar que a seleção argentina merece reconhecimento pelo trabalho desenvolvido e pelos resultados alcançados.

«Temos de nos adaptar às regras e respeitar os árbitros»

Questionado sobre a possibilidade de uniformizar os critérios de arbitragem entre competições europeias, sul-americanas e mundiais, Lucuix considerou que a responsabilidade das equipas passa por se adaptarem às decisões de quem dirige os encontros.

«Não depende disso. Temos de nos adaptar. Este jogo é assim. Adaptamo-nos às regras, os árbitros estão lá para isso, temos de cumprir e apoiá-los.»

O selecionador recusou também a ideia de que exista necessariamente uma arbitragem superior em determinado continente.

«Não podemos acreditar que os árbitros de um lugar são melhores do que os outros. Todos conhecemos a modalidade, tanto na América do Sul como na Europa ou na Ásia.»

E reforçou:

«As regras são aplicadas pela arbitragem. Temos de nos adaptar a isso. Não podemos procurar desculpas nos árbitros.»

«Estou aqui para ganhar, mas sempre com lealdade»

Na parte final da conferência, Lucuix voltou a defender a intensidade competitiva da Argentina, enquadrando-a na exigência do alto rendimento.

«A realidade é que, neste nível, todos procuramos ganhar. Existe também a mensagem de que temos de dar espetáculo, mas eu venho aqui para ganhar. Porque, se não ganhar, seguramente não volto a estar aqui.»

O treinador fez questão de distinguir a vontade de vencer da utilização de comportamentos antidesportivos.

«A equipa joga, mas sempre com lealdade. Sempre com lealdade.»

Lucuix voltou ainda a rejeitar a ideia de que os jogadores argentinos procurem ultrapassar deliberadamente os limites regulamentares.

«Eu falo da minha equipa, daquilo que somos. Os nossos jogadores competem por todo o mundo e nunca tiveram essa tendência.»

E terminou reafirmando o desagrado com as críticas.

«Não me parece que esta seleção, por tudo aquilo que tem vindo a fazer, merece ser caracterizada desta maneira. Volto a repetir: isto vem de um só lado, não de todo o mundo.»

Uma defesa da identidade competitiva argentina

A conferência de imprensa de Matías Lucuix acabou por ultrapassar a análise da vitória sobre Portugal.

O selecionador valorizou a capacidade defensiva, a resistência física e emocional e o processo de renovação de uma Argentina que continua a competir entre as grandes potências do futsal mundial.

Mas a questão da agressividade revelou-se particularmente sensível.

As declarações de Lucuix evidenciam uma preocupação com a forma como a identidade competitiva argentina está a ser interpretada, sobretudo depois de um clássico com o Brasil marcado por duelos físicos intensos e diferentes leituras sobre a arbitragem.

Há, contudo, uma distinção essencial entre intensidade competitiva e agressividade excessiva. A primeira é uma característica fundamental do futsal de alto rendimento. A segunda exige uma avaliação concreta das ações e da aplicação das regras.

Lucuix defendeu que a sua equipa compete com lealdade e que cabe à arbitragem estabelecer os limites do jogo, posição que também foi manifestada pelo internacional argentino Ángel Claudino após o encontro com Portugal.

As referências a episódios anteriores envolvendo jogadores brasileiros representam a interpretação do selecionador argentino e não constituem, por si só, uma confirmação de infrações disciplinares.

No plano desportivo, a Argentina sai de Niterói com a medalha de bronze e com uma geração em desenvolvimento, depois de voltar a disputar encontros equilibrados diante de Brasil e Portugal.

Para Lucuix, o terceiro lugar é importante. Mas tão importante como o resultado é defender uma identidade que considera construída através do trabalho, da competitividade e do respeito pelo jogo.

Zona Técnica Futsal | Finalíssima 2026 — Arena Niterói, Brasil

Declarações: Matías Lucuix, selecionador da Argentina, após o Argentina–Portugal.

Por Zona Técnica