O guarda-redes Gutta regressou aos minutos de jogo pelo KS Constract Lubawa, na Polónia, e fez a estreia pela seleção de Cabo Verde na Copa das Nações de Futsal 2026.

O guarda-redes Gutta regressou aos minutos de jogo pelo KS Constract Lubawa, na Polónia, e fez a estreia pela seleção de Cabo Verde na Copa das Nações de Futsal 2026.
O dia em que tudo parou
A lesão aconteceu a 8 de novembro de 2025, num jogo do Constract contra o BAF Bonito Białystok. O adversário rematou, e o Gutta tentou uma defesa de chapéu. Ao saltar, sentiu “um estalo gigante no calcanhar”. Lembra-se do momento como se fosse ontem.
No campo, o fisioterapeuta fez o teste do tendão de Aquiles e confirmou a suspeita. No hospital, o médico confirmou a rotura total e avisou que a recuperação seria lenta e cuidadosa, entre 10 e 12 meses.
Para um guarda-redes, esta lesão pesa muito. É no tendão de Aquiles que assentam os saltos e as mudanças de direção da baliza.
Duas fases, dois países
A recuperação foi feita em dois países. Na Polónia, com o fisioterapeuta do clube, Michal, e o preparador físico, Bernardo. Em Portugal, com a equipa de fisioterapia da Alfraclinic, em especial João Coito e JP.
“A minha recuperação foi um bocado delicada”, explica.

A entrevista
Como te sentes hoje?
“Sinto-me muito bem, sem dores, e a recuperar a confiança treino a treino e jogo a jogo.”
Como foi o regresso aos minutos de jogo?
“Soube muito bem ter minutos pela equipa. Sinto que o meu esforço deu resultado.”
Lembras-te do momento da lesão?
“Lembro-me como se fosse ontem. Foi no remate do adversário, e assim que saltei senti esse estalo no calcanhar.”
Como foi perceber a gravidade?
“No campo, o fisioterapeuta fez o teste e disse-me que o tendão estava rompido. No hospital, o médico confirmou a rotura total e avisou que a recuperação seria lenta, entre 10 e 12 meses.”
O que passou pela tua cabeça?
“Perguntei a Deus muitas vezes porquê. Às vezes pensava se ia voltar a jogar ou se ia voltar a ser o mesmo Gutta de sempre.”
Pensaste em desistir?
“Nunca me passou pela cabeça. Tentei sempre ver o lado positivo e manter a cabeça erguida. Nem sempre foi fácil, mas os colegas ajudaram muito.”
Quem esteve contigo?
“Deus esteve sempre comigo, e a minha família também. Os colegas, o Michal e o Bernardo na Polónia, e a equipa da Alfraclinic em Portugal, especialmente o João Coito e o JP.”
Qual foi o momento mais duro?
“Foram os treinos. Ia todos os dias, e é muito difícil ver os colegas a treinar e estar sentado sem poder fazer nada.”
Como foi a fase da corrida lenta?
“Sentia muitas dores, mas nunca pensei em parar. Refugiava-me na fé e no ginásio.”
Consideras-te corajoso?
“Não sou muito corajoso, mas senti que esta lesão não me ia vergar, e foi assim até ao fim.”
O que te dava força?
“Cada vez que ia ao médico e ouvia que estávamos no bom caminho, ficava muito motivado. Cada exercício feito, cada dia ou noite sem dores, dava-me a certeza de que era mais forte do que a lesão.”
O que descobriste sobre ti?
“Depois de 29 anos a viver no meu corpo, descobri sensações e sentimentos que estavam bem escondidos. Há um Gutta antes da lesão e um Gutta depois dela, como homem e como guarda-redes.”
Como foi a dor no dia a dia?
“No dia a dia não sentia muita dor. Comecei a sentir mais quando passei aos exercícios mais intensos, mas nunca me frustrou, porque sabia que estava no caminho certo.”
Mudaste algum hábito?
“Sim. Faço sempre a mobilidade antes do treino e reforço muscular todas as semanas. O trabalho não pára, e agora tenho de manter os bons hábitos.”
Como foi o primeiro treino?
“Foi complicado, porque tinha medo de tudo. Sabendo que nós, guarda-redes, usamos muito o tendão de Aquiles nos saltos e nas mudanças de direção, mas correu bem.”
E o primeiro jogo pela seleção?
“Foi a minha estreia pela seleção de Cabo Verde, na Copa das Nações, contra o Brasil. Tremia por todos os lados, mas correu-me bem. A confiança vai-se ganhando treino a treino e jogo a jogo.”
Que mensagem deixas a quem está lesionado?
“Já é um cliché, mas é a realidade: para tudo na vida, nunca desistam.”
O que significou representar Cabo Verde?
“Foi uma grande alegria representar o país do meu pai e dos meus avós. Foi muito especial, porque perdi o meu pai há cerca de dois anos, e gostava que ele pudesse ver este momento.”
Como correu o projeto da seleção?
“Correu muito bem. O projeto ainda não tem um ano de existência, e conseguimos jogar de igual para igual com seleções que estão no top-20 do ranking mundial.”
Quais são os objetivos para esta época?
“O mesmo de sempre: divertir-me e, acima de tudo, ter uma época saudável e conseguir estar presente para ajudar a equipa a alcançar os seus objetivos.”

Que mensagem deixas aos adeptos?
“Na publicação que fiz quando me lesionei, disse: ‘não fiquem tristes, porque vou precisar muito do vosso apoio’. Agora só me resta agradecer as mensagens, os presentes e, acima de tudo, o apoio. Não tenho fãs, tenho amigos. Muito obrigado, malta.”
E aos que acompanham a Zona Técnica Futsal?
“Por causa de vocês, o futsal tem crescido cada vez mais. Continuem o vosso trabalho, que é excelente. Um abraço especial ao Rui e ao Carlos Simões, que são os maiores.”
Quase um ano depois de uma rotura total do tendão de Aquiles, o Gutta voltou a jogar e fez a estreia pela seleção de Cabo Verde. A sua mensagem é simples: confiança treino a treino, jogo a jogo, e nunca desistir.
Foto - Gutta
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