Nacional 8 novembro 2026 8 min de leitura

Jorge Braz: «Fomos incompetentes na última ação. Temos de melhorar as coisas simples do jogo»

Portugal terminou a Finalíssima 2026 no quarto lugar, depois da derrota por 3-1 frente à Argentina, mas Jorge Braz recusou colocar em causa a qualidade do processo coletivo apresentado pela Seleção Nacional. Na conferência de imprensa, o selecionador destacou a capacidade portuguesa para construir oportunidades, reconheceu a falta de eficácia nos momentos decisivos e defendeu a necessidade de continuar a investir na formação e na melhoria dos fundamentos do jogo. Entre a desilusão pelo resultado e a confiança no futuro, deixou uma mensagem clara: Portugal continua a construir, mas precisa de ser mais competente na última ação.

A Seleção Nacional despediu-se da Arena Niterói sem qualquer vitória, depois da eliminação nas grandes penalidades diante da Espanha e da derrota frente à Argentina no encontro de atribuição do terceiro lugar.

Apesar do resultado, Portugal voltou a apresentar um volume ofensivo considerável, terminando a partida com 44 remates, mas apenas um golo marcado. Uma realidade que reforçou as dificuldades de finalização identificadas ao longo da competição.

Jorge Braz reconheceu a ineficácia, mas fez questão de distinguir a qualidade da construção ofensiva da capacidade para concretizar. O selecionador abordou ainda o golo sofrido aos 11 segundos, a agressividade argentina, a arbitragem, o desenvolvimento dos jovens jogadores e a preparação do próximo ciclo mundialista.

«O processo de construção foi fantástico. Faltou o mais importante»

Questionado sobre o balanço da derrota e aquilo que faltou para Portugal conseguir um resultado diferente, Jorge Braz apontou a eficácia como principal problema.

«A eficácia. O volume de jogo nosso, de construção, do processo de chegar lá, procurar aquilo que tínhamos de procurar, foi fantástico.»

O selecionador destacou que Portugal conseguiu encontrar as soluções pretendidas durante grande parte do encontro, mas voltou a falhar na definição.

«Falta o mais importante do jogo, essa clara evidência e essa decisão, a última ação do jogo.»

Na sua análise, a Argentina conseguiu manter-se na discussão do resultado apesar das oportunidades construídas pela Seleção Nacional.

Braz reconheceu também que, em determinados momentos, a vontade de resolver o encontro condicionou algumas decisões e os equilíbrios coletivos.

«Quisemos demasiado. [...] Temos de ser mais competentes na última ação, mais equilibrados. Depois, as coisas acabam por cair para o nosso lado, se formos consistentes e cuidadosos.»

«No primeiro minuto ainda há praticamente 40 minutos para jogar»

O golo sofrido aos 11 segundos, numa partida diante de uma Argentina particularmente competente a defender a vantagem, foi outro dos temas abordados.

Questionado sobre o impacto dessa entrada em falso, Jorge Braz recusou considerar que o lance tivesse condicionado irremediavelmente o encontro.

«Não, por acaso, nem entendemos. Até para isso estávamos preparados.»

E acrescentou:

«No primeiro minuto há 39, ainda quase 40 minutos para jogar.»

O selecionador insistiu na capacidade demonstrada para construir oportunidades e recuperar o controlo ofensivo, mesmo depois da desvantagem inicial.

Para Braz, o problema não esteve na forma como Portugal conseguiu chegar às zonas de finalização, mas na incapacidade para transformar essas situações em golos.

A agressividade argentina e o pedido de desculpas ao árbitro

A intensidade física argentina e o critério disciplinar também foram abordados na conferência de imprensa, numa questão colocada pela Zona Técnica Futsal.

O selecionador foi confrontado com a agressividade demonstrada pela Argentina, particularmente na meia-final diante do Brasil, e com o cartão amarelo que recebeu durante o encontro com Portugal.

Jorge Braz começou por esclarecer o episódio disciplinar.

«Fui pedir desculpa ao árbitro. Não é a minha forma de ser, nem de estar.»

O treinador referiu-se ainda à evolução do futsal e à responsabilidade das entidades que regulamentam a modalidade na definição daquilo que deve ser permitido dentro do campo.

A intervenção sobre este ponto apresentou algumas passagens pouco percetíveis na gravação, não sendo possível reproduzir com segurança toda a argumentação do selecionador.

«As coisas simples bem feitas é que interessam»

Confrontado com os 44 remates portugueses e com as dificuldades recorrentes de finalização, Jorge Braz foi questionado sobre aquilo que deve mudar para melhorar a eficácia dos jogadores.

A resposta levou a discussão para a formação.

«Se calhar, logo na formação dos nossos meninos e meninas, focarmo-nos mais nas coisas simples do jogo.»

E reforçou uma ideia que considera fundamental no desenvolvimento dos atletas.

«Há 20 anos que digo: as coisas simples bem feitas é que interessam.»

Para Jorge Braz, a melhoria da finalização e da qualidade das decisões não depende apenas do trabalho realizado durante os estágios da Seleção Nacional, mas de um processo mais abrangente de desenvolvimento dos jogadores.

«É um processo formativo. Continuamos a percorrer o nosso trabalho de qualificar, ter mais gente. Estamos a perder gente. Ter cada vez mais atletas, mais qualificados.»

O selecionador recusou, contudo, que os resultados desta Finalíssima representem uma situação de alarme.

«Não é nenhuma desgraça. Fomos incompetentes. Temos de melhorar.»

E voltou a sublinhar aquilo que considera essencial:

«Temos de nos focar muito nas coisas simples do jogo e melhorar a qualidade dos nossos jogadores e jogadoras.»

«Estamos sempre a construir»

Questionado sobre o ciclo que conduzirá ao Mundial de 2028 e a evolução da Seleção Nacional, Jorge Braz reafirmou a confiança no trabalho desenvolvido.

«Andamos sempre a construir. Nós temos andado sempre um passo à frente, a arriscar.»

O selecionador destacou a aposta nos jogadores mais jovens e a renovação progressiva do grupo.

«Não fui confirmar, mas se calhar somos a seleção com a média de idades mais baixa. Éramos das seleções com a média de idades mais baixa no Europeu.»

Reconheceu, porém, que esse processo pode trazer dificuldades em determinadas fases.

«Há determinados momentos em que se paga, mas nós temos andado sempre assim.»

Braz valorizou ainda a importância de proporcionar aos jogadores experiências competitivas diante das melhores seleções mundiais.

«Estamos a olhar para o nosso processo, para a nossa formação. Nós estamos sempre a construir.»

E acrescentou:

«Ter oportunidade de disputar uma competição destas, claro que se ganha. Ganha-se sempre muito.»

Na sua perspetiva, os resultados negativos tornam mais evidentes problemas que também existem quando se vence.

«As derrotas realçam mais coisas que correram mal. Se ganhássemos, havia coisas que correram mal e ninguém dizia nada.»

«Gostava de ganhar o processo, mas também o resultado»

O selecionador português fez ainda referência às palavras de Marquinhos Xavier, treinador do Brasil, sobre a importância de não avaliar um processo de desenvolvimento exclusivamente pelos títulos conquistados.

«Gostei muito do que ouvi do Marquinhos. [...] Porque ganhamos sempre, cada vez que temos a oportunidade de competir neste nível.»

Jorge Braz reconheceu a importância dessa aprendizagem, mas deixou claro que a exigência competitiva continua a fazer parte dos objetivos portugueses.

«Agora, gostava de ganhar essas coisas do processo, mas a ganhar o produto e com o resultado.»

E concluiu:

«Não deu. Dará no futuro, noutras ocasiões.»

«Tentámos tudo. O processo de construção aconteceu»

Na parte final da conferência de imprensa, Jorge Braz voltou à análise dos comportamentos ofensivos portugueses e à diversidade de soluções utilizadas para contrariar a organização defensiva argentina.

O selecionador explicou que Portugal procurou criar superioridades, encontrar vantagens na circulação e dar continuidade às ações através das relações entre jogadores.

«Tivemos três, quatro oportunidades claríssimas a construir.»

Braz sublinhou que o objetivo não era apenas colocar a bola em determinadas zonas, mas criar condições para que os jogadores identificassem e explorassem as vantagens.

«Procurar a vantagem e dar sequência a essa vantagem com os outros colegas.»

A Seleção procurou também variar as suas estruturas ofensivas, alternando a utilização do 4:0 e do 3:1, numa tentativa de encontrar diferentes respostas para a organização argentina.

«Tentámos isso, tentámos de outra forma, jogámos de quatro, jogámos de três. [...] Tentámos tudo e acho que o processo de construção aconteceu.»

Nessa procura de superioridades, Portugal recorreu ainda à participação do guarda-redes em zonas avançadas, nomeadamente através de Bernardo Paçó, e, nos minutos finais, apostou no 5x4 com Diogo Santos como guarda-redes avançado. O selecionador considerou que a equipa conseguiu construir oportunidades através de diferentes estruturas, mas voltou a identificar na última ação a principal dificuldade.

Mas a conclusão voltou ao mesmo problema que marcou toda a análise portuguesa.

«Não aconteceu a última ação, a mais simples. É aí que temos de trabalhar mais.»

A construção existe, mas falta transformar a qualidade em resultados

A conferência de imprensa de Jorge Braz deixou uma distinção fundamental para compreender o balanço português na Finalíssima.

O selecionador não considera que a Seleção tenha perdido a sua identidade ou deixado de apresentar soluções coletivas. Pelo contrário, valorizou a capacidade para construir oportunidades através de diferentes organizações ofensivas, encontrar vantagens e superar os problemas apresentados pelos adversários.

O problema, na sua leitura, esteve sobretudo na última ação: o momento em que a construção tem de se transformar em finalização eficaz.

Mas a reflexão foi além dos dois jogos realizados em Niterói.

Ao defender uma maior atenção aos fundamentos técnicos desde a formação, Jorge Braz identificou uma responsabilidade que ultrapassa a Seleção Nacional e envolve todo o processo de desenvolvimento do futsal português.

O quarto lugar não corresponde às ambições de uma equipa que chegou ao Brasil como detentora do troféu. Ainda assim, o selecionador recusou transformar a desilusão numa avaliação negativa de todo o percurso.

A aposta na renovação, a integração de jogadores mais jovens e a continuidade de uma identidade coletiva permanecem no centro do projeto português.

Contudo, a exigência também permanece.

Portugal já demonstrou que consegue competir e construir perante as melhores seleções do mundo. O desafio está em conseguir que a qualidade dessa construção se traduza em decisões mais eficazes, maior equilíbrio nos momentos críticos e, sobretudo, vitórias.

Porque, no futsal de alto rendimento, não basta chegar muitas vezes às zonas de finalização. É necessário chegar em condições de decidir.

E, como Jorge Braz voltou a lembrar, por vezes são as coisas mais simples do jogo que acabam por fazer a maior diferença.

Zona Técnica Futsal | Finalíssima 2026 — Arena Niterói, Brasil

Declarações: Jorge Braz, selecionador nacional, após o Argentina–Portugal.

Por Zona Técnica