Nacional 8 novembro 2026 7 min de leitura

Afonso Jesus: «Pecamos claramente na finalização. Temos de olhar para aquilo que podemos dar mais a esta Seleção»

Portugal terminou a Finalíssima 2026 no quarto lugar, depois da derrota por 3-1 diante da Argentina. No final do encontro, Afonso Jesus fez um balanço exigente da prestação portuguesa, reconheceu os problemas de eficácia e defendeu a qualidade do futsal apresentado pela equipa de Jorge Braz. O internacional português deixou ainda críticas às condições do piso e da bola utilizados na competição e abordou a agressividade argentina e os diferentes critérios de arbitragem no futsal internacional.

A Seleção Nacional despediu-se da Arena Niterói sem conquistar qualquer vitória, apesar de ter apresentado momentos de qualidade diante da Espanha e da Argentina. Frente aos argentinos, Portugal terminou com 44 remates, dos quais apenas dez enquadrados, números que voltaram a colocar a eficácia no centro da discussão.

Para Afonso Jesus, a equipa demonstrou uma identidade mais próxima daquela que lhe permitiu conquistar títulos internacionais, mas não conseguiu transformar a produção ofensiva em resultados.

«Fomos mais Portugal do que tínhamos sido na final do Europeu»

Questionado sobre o balanço da competição e o quarto lugar alcançado, Afonso Jesus começou por destacar a responsabilidade de representar a Seleção Nacional.

«Acima de tudo, acho que já depois de termos perdido o Europeu nos apresentámos para trabalhar muito bem. Os jogos acabaram por não correr da maneira que nós queríamos, sem dúvida nenhuma.

Representamos um país inteiro, temos uma responsabilidade muito grande pelo futsal português, pelos atletas que não estão aqui e que poderiam estar.

Mas eu acho que fomos mais Portugal do que tínhamos sido, principalmente na final do Europeu. Em muitos momentos fizemos aquilo a que nos propúnhamos. Infelizmente, a bola não entrou quando também deveria ter entrado.»

O internacional português considerou que o momento exige reflexão, sobretudo por parte dos jogadores.

«Agora, neste momento, há principalmente nós, jogadores, a olhar para nós, refletir, perceber aquilo que temos de melhorar, aquilo que temos de dar mais a esta Seleção quando cá vimos, para reconquistar aquilo que sabemos que já conquistámos.»

«Portugal é quem mais se propõe a jogar futsal»

Confrontado pela Zona Técnica Futsal com os 44 remates realizados diante da Argentina, apenas dez enquadrados, e com a qualidade de jogo demonstrada pela Seleção, Afonso Jesus não teve dúvidas quanto ao principal problema.

«Eu acho que, neste momento, na minha opinião sincera, Portugal é quem mais se propõe a jogar futsal, é quem mais se propõe a jogar tanto de 3:1 como de 4:0.

Pecamos claramente na finalização. Neste momento é um dos pontos que nós próprios apontamos uns aos outros, com vista a melhorar.

E é como eu digo, neste momento é muito mais nós, jogadores, olharmos para nós, olhar para aquilo que podemos entregar a mais a esta Seleção, a este país, para poder trazer outros resultados.»

Uma reflexão que acompanha as declarações de André Coelho após a eliminação diante da Espanha e que coloca a responsabilidade da melhoria na capacidade individual e coletiva para transformar oportunidades em golos.

«Pavilhões e pisos como este não ajudam o futsal»

Questionado sobre a gestão dos últimos minutos, quando Portugal procurava recuperar a desvantagem e acabou por sofrer o terceiro golo, Afonso Jesus introduziu outro tema: as condições de jogo.

«Eu não pego tanto por aí e nem queria tocar tanto neste assunto. Infelizmente perdemos e, se calhar, ganhando teria sido mais fácil dizer isto.

Mas parece-me a mim também que competições como estas, e há uma semana atrás vindo da Champions também, em que a organização é a UEFA, pavilhões e pisos como este não ajudam no futsal.

A bola não era a melhor, o piso não é o melhor. Para quem joga futsal sabe o risco até de alguns pisos como este para lesões graves, mas acima de tudo para o espetáculo, para quem assiste, para quem joga.

Um piso em melhores condições seria melhor e uma bola também em melhores condições.»

Apesar das críticas, o internacional português não deixou de reconhecer os erros cometidos pela equipa no momento decisivo.

«Aquilo que dizes é uma realidade. Tomámos decisões menos corretas naquele momento e acabámos por perder.»

«Foi muito bonito sentir um pavilhão ao rubro a torcer por Portugal»

Afonso Jesus destacou também o apoio recebido no Brasil, onde muitos portugueses e brasileiros acompanharam a Seleção Nacional.

«Foi muito bonito, foi muito bonito. E uma das coisas que mais nos doeu de não estar nesta final foi isso mesmo.

Foi sentir o apoio das pessoas, sentir um pavilhão ao rubro a torcer por nós, a torcer por Portugal.

Sabemos que quem está lá em Portugal certamente também torceu muito por nós e nós temos esse dever, essa responsabilidade de entregar tudo por esta camisola.

Tenho a certeza de que o fizemos de alma e coração. Agora há que acrescentar a isso algumas retificações para crescermos como equipa.»

«No Brasil–Argentina pareceu-me excessivo. A arbitragem deixou acontecer»

Uma das questões colocadas pela Zona Técnica Futsal esteve relacionada com a intensidade física argentina e a comparação com os dérbis entre Benfica e Sporting, que Afonso Jesus conhece bem.

O internacional português distinguiu aquilo que observou na meia-final entre Brasil e Argentina do que encontrou no jogo de atribuição do terceiro lugar.

«Daquilo que nós pudemos ver do jogo do Brasil e da Argentina, a mim pareceu-me excessivo, sinceramente. Em muitos momentos a arbitragem deixou acontecer.

Não me parece que aconteça dessa maneira em Portugal.

Hoje já me pareceu um bocadinho mais idêntico àquilo que se joga num dérbi, especialmente entre o Benfica e o Sporting.

Eu pessoalmente gosto do futsal assim, quando não há maldade. Acho que hoje não houve tantos lances como tinha acontecido no Brasil–Argentina.»

O jogador sublinhou ainda a importância do respeito entre atletas e da uniformização dos critérios de arbitragem.

«Mas acho que acima de tudo é respeitarmo-nos muito, respeitarmo-nos enquanto atletas, que as coisas não sejam feitas com maldade.

Que haja agressividade, sim. Que haja também critério dos árbitros, sim, que é muito importante, principalmente quando andamos de uma competição para a outra, quando andamos de um país para o outro a jogar e depois nos encontramos nas seleções e o critério muitas vezes é diferente.

Mas, como eu digo, também não é a nossa área. Nós temos de nos preocupar mais é com o jogo e em fazer acontecer.»

Uma reflexão que vai além do resultado

As declarações de Afonso Jesus deixam três dimensões importantes para analisar o momento da Seleção Nacional.

A primeira está relacionada com a eficácia. Portugal voltou a demonstrar capacidade para criar oportunidades, variar as suas estruturas ofensivas e assumir a iniciativa, mas continua a encontrar dificuldades na transformação desse volume de jogo em golos.

A segunda prende-se com as condições competitivas. Ao criticar o piso e a bola utilizados em Niterói, o internacional português trouxe para a discussão a importância das infraestruturas na qualidade do espetáculo e na segurança dos jogadores, questões que merecem atenção numa competição entre quatro das melhores seleções mundiais.

A terceira diz respeito à intensidade física e à arbitragem. Afonso Jesus reconheceu a agressividade como uma característica legítima do futsal, mas distinguiu a disputa competitiva dos excessos observados no Brasil–Argentina, defendendo a importância de critérios consistentes entre diferentes competições.

Mas talvez a mensagem mais significativa tenha sido a responsabilidade assumida pelos próprios jogadores.

Sem colocar em causa o trabalho desenvolvido por Jorge Braz ou a qualidade do modelo português, Afonso Jesus reconheceu que a Seleção precisa de melhorar na finalização e na capacidade para decidir os momentos determinantes.

Portugal saiu de Niterói sem medalhas, mas também com sinais de que mantém uma identidade competitiva reconhecível.

O desafio já não é demonstrar que Portugal sabe jogar ao mais alto nível. É conseguir que essa qualidade volte a traduzir-se naquilo que distingue as grandes seleções: vencer quando o jogo exige eficácia, rigor e capacidade de decisão.

Zona Técnica Futsal | Finalíssima 2026 — Arena Niterói, Brasil

Declarações: Afonso Jesus, internacional português, após o Argentina–Portugal.

Por Zona Técnica