Nacional 23 outubro 2026 15 min de leitura

Quando o sonho deixa de caber no pavilhão: quem prepara os jovens futsalistas para o dia em que deixam de ser escolhidos?

Entre treinos, jogos, deslocações e investimentos familiares, o futsal de formação alimenta o sonho de milhares de jovens portugueses. Mas nem todos chegarão ao mais alto nível. Jorge Silvério, psicólogo do desporto ligado à Seleção Nacional de Futsal, alerta para os riscos da especialização precoce, da pressão parental e das consequências emocionais das dispensas. Numa modalidade que tanto tem crescido, importa perceber se a preocupação em formar jogadores é acompanhada pela mesma responsabilidade de preparar pessoas.

Tudo começa com uma bola e a vontade de jogar. Um pavilhão, os primeiros treinos, a camisola de um clube e a descoberta de uma modalidade que rapidamente passa a ocupar um lugar importante na vida de muitas crianças. Há amizades que nascem, vitórias que ficam na memória e derrotas que ajudam a crescer. Pelo meio, surge quase sempre o sonho de um dia jogar ao mais alto nível.

O problema não está nesse sonho. Está naquilo que pode acontecer quando deixa de pertencer apenas à criança.

Uma reportagem do Diário de Notícias, publicada a 17 de fevereiro de 2026 e assinada por Cecília Carmo, colocou em discussão uma realidade cada vez mais presente no desporto juvenil: o investimento das famílias na formação dos filhos e a pressão associada à possibilidade de alcançarem uma carreira profissional. No futebol, crianças de oito ou dez anos já complementam os treinos dos clubes com preparação individual, enquanto os pais reorganizam horários, férias e despesas para acompanhar um percurso que acreditam poder conduzir ao sucesso.

Entre os especialistas ouvidos está Jorge Silvério, psicólogo do desporto que integra a equipa técnica da Seleção Nacional de Futsal, onde trabalha desde 2015, segundo a sua biografia. Silvério, que foi nomeado Provedor da Ética no Desporto em maio de 2025, alerta para os efeitos da especialização precoce, para a distância entre as expectativas e a realidade e para a necessidade de acompanhamento psicológico, sobretudo quando chega o momento em que um clube decide não continuar com determinado atleta.

Embora a reportagem se concentre no futebol, as preocupações levantadas encontram no futsal português motivos suficientes para uma reflexão. Porque também nos pavilhões existem sonhos, expectativas, investimentos familiares e decisões que podem marcar profundamente o percurso de uma criança.

O preço de um sonho que envolve toda a família

O futsal português contava, na época 2024/25, com 43.704 praticantes, segundo a Federação Portuguesa de Futebol, que registou um aumento de 1,7% face à época anterior. O número, que inclui diferentes escalões e categorias, demonstra a dimensão que a modalidade alcançou e o trabalho desenvolvido por centenas de clubes espalhados pelo país.

Mas por detrás de cada jovem que entra num pavilhão existe, frequentemente, uma família que torna possível a sua participação.

Como exemplo de uma estrutura de formação, o Estrela da Amadora indica na sua página oficial do futsal uma inscrição inicial de 180 euros e mensalidades de 30 euros. Em dez meses, o custo atingiria 480 euros, sem contar outras despesas eventualmente necessárias. A página não indica a época a que os valores se referem, por isso devem ser confirmados junto do clube.

Depois há aquilo que os preçários não mostram. As viagens, o combustível, as portagens, as refeições fora de casa e, sobretudo, o tempo. Os pais que saem mais cedo do trabalho para levar os filhos ao treino, os fins de semana passados entre pavilhões e os compromissos familiares ajustados aos calendários competitivos.

O verdadeiro custo de uma época ultrapassa o valor da mensalidade.

É um investimento legítimo, feito muitas vezes com enorme dedicação. Mas pode ganhar outra dimensão quando começa a ser acompanhado pela expectativa de que o filho venha a tornar-se profissional.

É aí que se coloca uma das questões mais delicadas: quando uma família investe durante anos num percurso desportivo, consegue aceitar com naturalidade que esse percurso possa não conduzir ao destino inicialmente imaginado?

Quando ganhar começa a ocupar o espaço de formar

O futsal é uma modalidade exigente. A velocidade das decisões, a necessidade de interpretar constantemente o jogo, a relação com os colegas e a adaptação aos diferentes momentos competitivos obrigam a uma aprendizagem prolongada.

Um jogador não se desenvolve apenas porque marca golos, ganha jogos ou apresenta maior capacidade física do que os adversários da mesma idade. A compreensão tática, a qualidade das decisões, a criatividade e a maturidade emocional são dimensões que evoluem de formas diferentes e nem sempre acompanham o rendimento imediato.

Há crianças que se destacam cedo e outras que precisam de mais tempo. O jogador mais desenvolvido aos 12 anos pode não ser aquele que apresenta maior potencial aos 18.

No entanto, a competição de formação vive frequentemente confrontada com a necessidade de apresentar resultados. Os clubes querem vencer, os treinadores procuram construir equipas competitivas e os jovens aprendem rapidamente a importância de jogar, ser convocado e conquistar títulos.

Nada disto constitui, por si só, um problema. A competição é parte fundamental do desenvolvimento. A dificuldade surge quando o resultado imediato passa a determinar quase exclusivamente as oportunidades concedidas aos jogadores.

Que espaço existe para um jovem que ainda não apresenta a mesma maturidade física dos colegas? Quanto tempo recebe para corrigir erros? Como se gere um atleta que demonstra potencial, mas ainda não consegue traduzir essa capacidade em rendimento competitivo?

São perguntas que não têm uma resposta única, mas que ajudam a distinguir uma estrutura preocupada em formar jogadores de outra excessivamente condicionada pelo resultado do próximo fim de semana.

Jorge Silvério chama a atenção para a importância de desenvolver competências psicológicas desde cedo. Lidar com o erro, aceitar a frustração e compreender que uma decisão técnica não define o valor de uma pessoa são aprendizagens que deveriam acompanhar o crescimento dos jovens atletas.

Porque a formação também se faz quando um jogador fica no banco, quando falha um golo decisivo ou quando percebe que, naquele momento, existem colegas mais preparados para competir.

A maneira como essas situações são explicadas e acompanhadas pode ser tão importante como o próprio treino.

O dia em que deixam de ser escolhidos

Talvez seja esta a parte do desporto de formação sobre a qual menos se fala.

Todos conhecem histórias de jovens que chegam às principais equipas, assinam contratos ou representam as seleções nacionais. São percursos valorizados, apresentados como exemplos do trabalho desenvolvido pelos clubes e frequentemente utilizados para demonstrar a qualidade dos projetos formativos.

Mas há muitas outras histórias que raramente chegam às notícias.

A do jovem que passou sete ou oito anos no mesmo clube e recebe, no final de uma época, a informação de que não continuará. A daquele que deixa de ser convocado com regularidade. Ou a de quem percebe, na transição para um escalão superior, que já não existe espaço para continuar a competir naquele contexto.

A dispensa faz parte do desporto. Mas uma decisão tecnicamente legítima pode ser emocionalmente difícil de aceitar, sobretudo quando envolve alguém que passou grande parte da infância ligado à mesma instituição.

Na reportagem do Diário de Notícias, Jorge Silvério alerta para as consequências que uma dispensa pode ter, particularmente entre os 14 e os 16 anos, no contexto do futebol juvenil. Nessa fase, o jovem pode ter construído uma parte importante da sua identidade em torno do desporto, tornando especialmente difícil compreender que deixa de fazer parte de um projeto ao qual dedicou tantos anos.

No futsal, a situação merece a mesma atenção. Quando um jovem é dispensado, o clube não está apenas a retirar um nome de uma ficha de inscrição. Está a tomar uma decisão que pode afetar a relação daquele atleta com uma modalidade que aprendeu a gostar.

Não significa que a decisão esteja errada. Significa que a forma como é comunicada importa.

Há uma diferença entre explicar a um jogador que, naquele momento, não reúne as condições competitivas pretendidas e transmitir-lhe, direta ou indiretamente, a ideia de que deixou de ter valor.

Também existe uma diferença entre terminar uma ligação desportiva e abandonar completamente o acompanhamento de alguém que cresceu dentro de uma estrutura.

Um jovem que não encontra espaço numa equipa pode continuar a desenvolver-se noutra. Pode precisar de um contexto menos exigente, de mais oportunidades para jogar ou simplesmente de tempo para recuperar a confiança.

O problema surge quando a dispensa é interpretada como o fim de qualquer possibilidade.

Deixar um clube não é o mesmo que deixar de ser jogador.

O salto para os seniores e o silêncio dos números

A passagem do escalão de juniores para o futsal sénior é outro dos momentos que merecem atenção.

Durante anos, os jogadores competem com adversários de idades semelhantes, integrados em estruturas onde a evolução individual acompanha o calendário competitivo. Depois chega o fim da formação e tudo muda.

A concorrência aumenta, as exigências físicas e táticas são diferentes e os lugares disponíveis dependem de fatores que vão muito além do talento demonstrado nos escalões jovens.

Para alguns, a transição faz-se com naturalidade. Outros precisam de procurar oportunidades em clubes com diferentes objetivos competitivos. Há quem continue a jogar nos campeonatos distritais, quem tenha de conciliar os treinos com os estudos ou com o trabalho e quem acabe por abandonar a prática federada.

Mas quantos jogadores seguem cada um destes caminhos?

Quantos jovens que terminam a formação chegam efetivamente à Liga Placard? Quantos continuam a competir ao fim de duas ou três épocas? Quantos desaparecem dos registos federativos? E, sobretudo, por que razões deixam de jogar?

A informação pública disponível não permite traçar, com suficiente detalhe, estes percursos no futsal português.

No futebol, os números citados pela reportagem do Diário de Notícias mostram como são reduzidas as possibilidades de chegar ao profissionalismo. Esses indicadores dizem respeito a contextos específicos do futebol e não podem ser automaticamente aplicados ao futsal.

Seria importante que a modalidade tivesse um retrato próprio. Não apenas para conhecer a percentagem de jogadores que chega às principais competições, mas também para perceber a capacidade dos clubes de manter os jovens ligados ao desporto quando termina a formação.

O sucesso de um projeto não deveria ser medido apenas por aqueles que consegue promover. Também importa saber o que acontece aos restantes.

A psicologia chega ao topo. E à base?

Há um dado que confere especial importância às palavras de Jorge Silvério: a sua ligação à Seleção Nacional de Futsal.

Segundo a sua biografia, o psicólogo trabalha com a seleção desde 2015. Em 2018, a equipa conquistou o Campeonato da Europa, em Liubliana, e em 2021 chegou ao título mundial, na Lituânia. Em 2022, Portugal revalidou o título europeu, ao vencer a Rússia por 4-2 na final, em Amesterdão.

A presença de um profissional desta área no contexto do alto rendimento demonstra a importância atribuída à preparação psicológica dos jogadores que competem no mais elevado patamar internacional.

Mas levanta uma questão difícil de ignorar.

Se a capacidade de lidar com a pressão, gerir emoções e responder à adversidade é importante para um jogador internacional, não será também fundamental para uma criança que está a aprender a competir?

A diferença está nos recursos disponíveis. Nem todos os clubes portugueses dispõem de condições financeiras para integrar psicólogos nas suas estruturas. Muitos sobrevivem graças ao trabalho voluntário de dirigentes e à dedicação de treinadores que acumulam diferentes responsabilidades.

Essa realidade precisa de ser reconhecida. Mas a ausência de um profissional especializado não elimina a responsabilidade de criar ambientes adequados ao desenvolvimento dos jovens.

A comunicação dos treinadores, a relação com as famílias, a gestão das expectativas e a forma como se lida com o erro são aspetos que devem fazer parte da preparação de quem trabalha na formação.

Não se trata de transformar cada derrota num problema psicológico ou cada momento de frustração numa situação que exige intervenção clínica.

Trata-se de reconhecer que aprender a competir também significa aprender a perder, esperar, lidar com decisões desfavoráveis e continuar motivado quando as coisas não correm como se gostaria.

O acompanhamento psicológico não deveria existir apenas para resolver dificuldades quando estas já se instalaram. A sua dimensão preventiva e educativa é igualmente importante.

E talvez a preparação para uma eventual dispensa devesse começar muito antes de ela acontecer.

Os pais também precisam de aprender a acompanhar

A pressão exercida sobre os jovens nem sempre nasce dentro dos clubes. Por vezes, surge nas bancadas, nas viagens de regresso a casa ou nas conversas que se seguem a um jogo.

Há pais que analisam cada decisão do treinador, questionam os minutos de utilização dos filhos e interpretam uma convocatória como uma confirmação de talento ou uma ausência como um sinal de injustiça.

O envolvimento parental é essencial, mas pode tornar-se excessivo quando a experiência desportiva passa a ser observada permanentemente através do rendimento.

Numa entrevista à Renascença, em outubro de 2024, Jorge Silvério defendeu que a ansiedade que os jovens atletas revelam passa, muitas vezes, pelo comportamento dos pais. É uma realidade que merece reflexão.

O apoio familiar não deveria depender dos minutos jogados, dos golos marcados ou dos resultados alcançados.

Um jovem precisa de sentir que continua a ter o mesmo reconhecimento depois de um jogo menos conseguido, de uma falha ou de uma decisão técnica desfavorável. Também precisa de perceber que pode atravessar períodos de menor rendimento sem que isso comprometa a relação com aqueles que mais o acompanham.

Os clubes têm aqui uma oportunidade importante. Uma comunicação regular com as famílias, objetivos formativos bem definidos e critérios claros sobre a utilização dos atletas podem ajudar a reduzir conflitos e expectativas desajustadas.

Formar jogadores implica, em certa medida, ajudar os adultos a compreender o processo de crescimento desportivo.

A formação não termina quando acaba a camisola

Nos últimos anos, a Federação Portuguesa de Futebol tem procurado desenvolver a certificação das entidades formadoras, incentivando os clubes a melhorar a organização e as condições proporcionadas aos jovens atletas. Na época 2025/26, a FPF certificou 1.161 entidades de futebol e futsal, mais 7,8% do que na época anterior.

É um caminho importante para a consolidação da modalidade. Mas a qualidade de uma estrutura formativa não deveria ser avaliada apenas pelos títulos conquistados, pelas instalações disponíveis ou pelo número de jogadores chamados às seleções.

Também deveria contar a forma como acompanha aqueles que deixam de integrar os seus projetos.

Um jogador pode passar vários anos num clube, não chegar ao escalão sénior dessa instituição e, ainda assim, ter beneficiado de um processo formativo de qualidade. Pode encontrar espaço noutra equipa, continuar a competir num campeonato distrital ou descobrir uma nova forma de estar ligado ao futsal.

Pode tornar-se treinador, árbitro, dirigente ou simplesmente alguém que continua a gostar de jogar.

Nenhum desses caminhos representa necessariamente um fracasso.

O desporto de formação tem uma dimensão competitiva, mas também educativa e social. Desenvolve capacidades que permanecem relevantes muito depois de terminar a possibilidade de alcançar o profissionalismo.

A disciplina, a responsabilidade, a cooperação, o respeito pelos outros e a capacidade de enfrentar dificuldades não desaparecem quando um jogador deixa de vestir determinada camisola. São aprendizagens que pertencem ao seu percurso pessoal.

Por isso, talvez faça sentido olhar para os projetos de formação através de uma pergunta diferente: quantos jovens continuam a gostar de futsal depois de saírem de um clube?

A resposta poderá dizer tanto sobre a qualidade do trabalho desenvolvido como o número de troféus conquistados.

O sonho é legítimo. A responsabilidade também.

O futsal português tem razões para valorizar o caminho percorrido. O crescimento da modalidade, os resultados internacionais e o trabalho desenvolvido diariamente por clubes e treinadores são parte de uma história que merece reconhecimento.

Mas o sucesso competitivo não dispensa uma reflexão sobre aquilo que acontece nos escalões de formação.

É legítimo que uma criança sonhe representar a Seleção Nacional. Que queira jogar no Sporting, no Benfica, no SC Braga ou em qualquer outra equipa da Liga Placard. Que imagine conquistar títulos e seguir os passos dos jogadores que admira.

O sonho faz parte do desporto e não deve ser desencorajado. O que não pode acontecer é transformá-lo numa obrigação ou na única forma de avaliar o valor de um jovem.

Nem todos chegarão ao topo. Alguns porque não terão oportunidade, outros porque encontrarão caminhos diferentes e muitos porque, com o crescimento, descobrirão que existem outras prioridades.

Isso não apaga os anos de dedicação, as amizades construídas, as experiências vividas ou as competências adquiridas. Também não retira mérito ao trabalho dos clubes que contribuíram para esse percurso.

As preocupações levantadas por Jorge Silvério mostram que a formação precisa de olhar para além do rendimento imediato. Não basta preparar os jovens para ganhar jogos. É necessário ajudá-los a compreender que o desporto também envolve escolhas, frustrações e momentos em que os objetivos precisam de ser redefinidos.

A maneira como um clube acompanha um jogador quando este deixa de ser uma opção pode revelar tanto sobre a sua cultura formativa como aquilo que faz pelos seus principais talentos.

Há jovens que sairão dos pavilhões para conquistar títulos nacionais e internacionais. Outros continuarão a competir longe dos grandes palcos. E haverá aqueles que, um dia, deixarão de jogar.

Todos fizeram parte da formação.

Talvez a verdadeira dimensão de um clube não se meça apenas pelos jogadores que consegue levar ao topo, mas também pela forma como trata aqueles que ficam pelo caminho. Porque o sonho de ser profissional pode acabar. O gosto pelo futsal não tem de acabar com ele.

Fontes: Diário de Notícias (Cecília Carmo, 17/02/2026); Renascença (entrevista a Jorge Silvério, 10/10/2024); Federação Portuguesa de Futebol (praticantes de futsal 2024/25 e certificação de entidades formadoras 2025/26); página do futsal do Estrela da Amadora (preçário, sem data indicada). Imagem: Zona Técnica.

Por Carlos Simões