Formação 18 outubro 2026 6 min de leitura

Brincar, depois jogar, depois futsal

Uma entrevista do professor Carlos Neto ao Observador lembra o que muitos treinadores sentem no pavilhão: as crianças mexem-se cada vez menos. Para muitas, o treino de futsal é o único momento do dia em que o corpo decide sozinho.

Li e ouvi esta semana uma entrevista do professor Carlos Neto que não me sai da cabeça.

«O tempo que o corpo não se mexe paga-se caro.»

O Carlos Neto passou 50 anos a estudar o brincar e o movimento na infância, na Faculdade de Motricidade Humana. No programa "Ciência de Campeões", da Rádio Observador, voltou a dizer o que muitos treinadores sentem no pavilhão todas as semanas.

«Há hoje crianças que não sabem correr, não sabem saltar, não sabem subir numa árvore, não sabem driblar uma bola, são analfabetos do ponto de vista motor.»

Não sabem driblar uma bola.

Para quem treina formação, esta frase dói.

Prisioneiras do tempo e do espaço

A primeira pergunta da entrevista foi direta: temos mesmo de libertar as crianças?

«É claro que sim. As crianças vivem prisioneiras no tempo e no espaço.»

Falta-lhes tempo, porque os pais trabalham muito e as agendas estão cheias. Falta-lhes espaço, porque a rua deixou de ser delas. O professor lembra a geração que cresceu nos anos 50, 60 e 70: joelhos esfolados, amigos que apareciam a qualquer momento, «um corpo que brincava suando».

E depois diz a frase que me ficou:

«Hoje as crianças já não suam.»

Muitos de nós aprendemos a jogar assim, na rua. Ninguém nos explicava a fixação do adversário nem a desmarcação. Descobríamos sozinhos, a jogar até escurecer.

Essa escola fechou para a maioria das crianças.

Hoje, para muitas delas, o treino de futsal é o único momento do dia em que o corpo decide sozinho.

Quarenta horas sentados

«As crianças passam 40 horas, em média, na escola. Isto é uma tragédia.»

Depois vêm o banco de trás do carro, a explicação, a música e o sofá.

O professor não fala só de sedentarismo. Fala de aprendizagem. «Na escola não entra só o cérebro, entra o corpo todo.» E chama ao corpo «o arquiteto do cérebro».

Um corpo parado aprende menos.

Informação não é conhecimento

O professor não pede que se proíbam os ecrãs. «O problema não está em proibir. O problema está em saber aquilo que elas não fazem.» Defende regras combinadas entre a escola e a família, com diálogo, e sobretudo equilíbrio.

«Tem que haver equilíbrio entre um corpo que se mexe, um corpo que se move e um corpo que tem que ter acesso à informação. Nós hoje temos muita informação, mas não sei se temos conhecimento. Vivemos na superficialidade e não na profundidade.»

Muita informação. Pouco conhecimento.

No futsal passa-se o mesmo. Uma criança pode ver mil vídeos de fintas no telemóvel e nunca ter tentado uma em jogo. A informação está toda lá. O conhecimento só chega quando o corpo experimenta, falha e volta a tentar.

O medo também se ensina

Há uma ideia na entrevista que todos os treinadores e pais deviam ouvir duas vezes.

«O problema da segurança é o medo da insegurança. (...) As crianças que se confrontam com mais riscos, têm mais segurança. As crianças que não se confrontam com o risco, são mais propensas para o acidente.»

O professor chega a falar de uma «superproteção patológica» dos adultos, como se tivessem esquecido a própria infância.

No futsal de formação, o risco tem nome: o 1x1 que corre mal, o passe entrelinhas que é intercetado, a finta tentada no sítio errado. E o medo também tem: o grito da bancada a cada perda de bola, o treinador que tira o miúdo depois do primeiro erro.

Se só premiamos quem não perde a bola, ensinamos medo.

E uma criança com medo não cria.

Os clubes pequenos e o excesso

Os jornalistas lembraram o papel dos pequenos clubes, que «às vezes fazem autênticos milagres com pouco dinheiro». O professor concordou: os clubes e as associações locais «são fundamentais» para dar às crianças um corpo mais ativo e combater o sedentarismo.

Quem anda no futsal conhece bem esses clubes: pavilhões emprestados, treinadores voluntários, mensalidades que mal pagam os equipamentos.

Mas deixou também um aviso: estas atividades não podem ser demasiado estruturadas. Há crianças de cinco, sete, oito anos com cinco ou seis atividades organizadas por semana. «Não está mal, isso não mata ninguém, mas é exagerado, porque elas não têm tempo para brincar livre.»

É uma pergunta para nós, treinadores.

Os nossos treinos são mais um horário a cumprir ou são o recreio que lhes falta?

O tédio também educa

Há uma frase que vale a pena levar para o pavilhão:

«A educação também se faz com tédio e com frustração.»

E outra: «É preciso que nós tenhamos a coragem de perceber o ganho, a beleza que é ter tempo pra não fazer nada.»

No treino, isto quer dizer deixar o jogo resolver. Menos paragens para explicar, menos instruções a cada lance, mais jogos reduzidos em que são os miúdos a encontrar a solução. Às vezes a melhor intervenção do treinador é ficar calado e deixar a frustração ensinar.

Quanto tempo passam os miúdos em fila, à espera da vez? Quanto tempo passam a ouvir-nos falar? E quanto tempo passam realmente a jogar, a decidir, a errar e a tentar outra vez?

Primeiro brincar

No fim da conversa, o Carlos Neto resumiu tudo numa sequência simples.

«Em primeiro lugar, brinca-se, depois joga-se e depois faz-se desporto. As crianças que não brincam e não têm experiências diversificadas com uma grande quantidade de atividades nas primeiras idades, dificilmente serão campeões.»

Brincar.

Jogar.

Só depois, desporto.


Queremos sub-11 a jogar como seniores, com sistemas, rotações e esquemas de bola parada decorados. E esquecemos que o talento nasce antes disso, no tempo livre, na diversidade, na rua que já não existe e no jogo sem regras.

O futsal tem uma vantagem enorme. Muitos contactos com a bola, decisões rápidas, espaço curto onde nada fica escondido. Em poucos metros cabe quase tudo: perceber, decidir, executar, falhar, corrigir.

É o recreio que as escolas foram perdendo, com uma bola e um treinador atento.

A nossa responsabilidade é não o transformar noutra sala de aula.

Para quem treina, e para quem educa

Uma criança suja, cansada e feliz depois do treino não é um problema.

É sinal de que o corpo se mexeu.

O professor diz que «corpos ativos dão cérebros ativos». E diz que o que lhe falta fazer é convencer toda a gente de que deve brincar a vida inteira.

«Brincar e jogar é a solução de todos os males para se ter campeões.»

No futsal, temos o privilégio de dar esse espaço às crianças todas as semanas.

Não o desperdicemos.

Citações retiradas da entrevista de Carlos Neto ao programa "Ciência de Campeões", da Rádio Observador, conduzida por Paulo Farinha e Cláudia Pinto e integrada na iniciativa "Mais do que Desporto" (8 de outubro de 2026).

🎧 Ouça a entrevista completa ao professor Carlos Neto no "Ciência de Campeões", da Rádio Observador
Por Carlos Simões