Kika deu, Ana Catarina Pereira guardou, Portugal venceu a Espanha por 1-0
Há vitórias que valem três pontos. E há vitórias que valem convicção. A que a Equipa das Quinas carimbou na noite desta sexta-feira no FPF Arena Portugal é das segundas. Ganhou 1-0 à Espanha, a actual campeã da Europa, num jogo em que não houve pontos em disputa mas em que se jogou muito mais do que isso, afinaram-se comportamentos, testou-se personalidade e enviou-se um recado para a Europa a seis dias do arranque da Ronda de Elite rumo ao Euro 2027.
Um jogo que foi tudo o que se antecipava, e um pouco mais:
Quem conhece o duelo entre Portugal e Espanha sabe que raramente há margem para improviso. São duas selecções que se estudam há anos, que partilham ADN competitivo, e que adoram esta rivalidade. O que se viu em Oeiras confirmou-o em cada momento. Equilíbrio, duelos individuais intensos, leituras rápidas de espaço e aquela sensação de que cada bola podia ser decisiva.
A Espanha foi fiel ao seu discurso táctico habitual. Procurou o jogo de pivô como forma de instalar-se nos últimos 10 metros, atrair a defensiva portuguesa e abrir espaços para a finalização e para as chegadas interiores. Luís Conceição respondeu com aquilo que mais tem trabalhado nos últimos tempos, densidade na zona central, ajudas rápidas nos corredores laterais e comunicação permanente entre linhas. Simples, mas difícil de executar.
Ana Catarina Pereira, o escudo das quinas:
Para que uma defesa funcione contra a Espanha, é preciso quase sempre ter alguém excepcional entre os postes. E foi exactamente isso que Ana Catarina Pereira entregou. Massiva em cima da linha, oportuna nas saídas e cirúrgica nas defesas de perto, segurou a primeira parte da forma como se seguram as grandes exibições, aquelas que mudam a confiança colectiva. Nem toda a gente marca golos para fazer Portugal vencer. Algumas defendem-nos.
Kika decide num esquema que vale uma ideia:
Marcar à Espanha é raro. Marcá-la de bola parada é ainda mais raro, porque esse é precisamente um dos pontos fortes da selecção das canarinhas. Pois foi aí, num esquema bem desenhado, que Portugal se adiantou aos 7 minutos. "Fifó" enganou a barreira, serviu em movimento "Kika" e a jogadora dos Leões de Porto Salvo rematou forte e colocado para o fundo da baliza de Ari.
Mais do que o golo, interessa aquilo que o antecedeu, detalhe, estudo, execução. Três palavras que se encontram muitas vezes nos quadros tácticos de Luís Conceição. E ainda houve tempo, antes do descanso, para Maria Pereira ter desperdiçado uma oportunidade clara de duplicar.
Segunda parte: a maturidade competitiva:
Depois do intervalo, a Espanha foi aquilo que a sua história exige, persistente, paciente, técnica. Dominou mais a posse, procurou alternativas pela mobilidade dos pivôs, estudou falhas de concentração. Não as encontrou. Portugal aguentou com frieza, equilibrou o jogo das faltas acumuladas com inteligência e, quando preciso, voltou a ter em Ana Catarina Pereira e, mais tarde, em Maria Odete Rocha, duas respostas de altíssimo nível.
Foi uma segunda parte sem ansiedade visível, o que diz muito sobre o grau de amadurecimento desta equipa. Com oportunidades para ampliar, até, em alguns contragolpes que mostraram que a estratégia de Luís Conceição incluía também transições curtas para castigar a saída espanhola.
Noite também de reconhecimento, cinco jogadoras distinguidas:
Antes do apito inicial, a Federação Portuguesa de Futebol, através do director Pedro Xavier, distinguiu cinco jogadoras pelo percurso ao serviço da Equipa das Quinas. Ana Azevedo, Ana Catarina Pereira, Inês Matos, Leninha e Maria Pereira foram reconhecidas, num gesto justo que confirma o quanto estas atletas têm sido referências silenciosas do crescimento do futsal feminino nacional.
Resumir esta noite num só título é empobrecê-la. Portugal não ganhou apenas um amigável de preparação. Ganhou argumentos. Ganhou sinais de que a Ronda de Elite começa com o grupo em bom momento competitivo. Ganhou autoestima, aquela que, num torneio de três jogos em quatro dias como o que se vem aí, pode fazer toda a diferença.
Dito isto, convém sempre lembrar o óbvio, os jogos amigáveis valem o que valem. A Espanha não jogou pelo título. Portugal também pode ter mostrado apenas uma parte do seu plano. Mas aquilo que ficou para quem viu é tangível, uma equipa sólida defensivamente, inteligente nos esquemas, ambiciosa no projecto e com uma moral que, quando bem canalizada, costuma transformar-se em pontos quando a bola começa a valer vagas no Europeu.
Chave para a Ronda de Elite: repetir o nível de concentração colectiva. E transformar as boas defesas e os esquemas bem desenhados em golos aos minutos certos. Se isso acontecer, Oliveira de Azeméis pode ser palco de uma qualificação muito tranquila para a Croácia.
Foto - Fpf.pt