Naná explica saída do Torreense: «Na prática, esta equipa técnica nunca funcionou»
Fernando Paiva “Naná” quebra o silêncio e apresenta as razões que estiveram na origem da sua saída do comando técnico do Torreense. Numa entrevista à Zona Técnica Futsal, o treinador explica por que decidiu suspender funções, aborda o funcionamento interno da estrutura técnica e revela que, ainda antes do início da Liga Placard, já tinha manifestado internamente a sua insatisfação com o rumo seguido.
Naná explica que aceitou o projeto para integrar uma verdadeira equipa técnica, com responsabilidades partilhadas e um modelo de trabalho previamente definido. Segundo o treinador, esse funcionamento nunca chegou, porém, a concretizar-se nos moldes inicialmente acordados.
A decisão de suspender funções surgiu depois de uma reunião de staff em que acreditou terem ficado clarificadas as suas responsabilidades. Dois dias depois, quando se preparava para discutir a estratégia para o encontro com o SC Braga, percebeu que a forma de funcionamento se mantinha diferente daquela que entendia ter sido estabelecida.
Agora, já oficialmente fora do Torreense, Fernando Paiva explica, na primeira pessoa, o que aconteceu.
Zona Técnica Futsal — Antes de entrarmos nas razões da saída, o que aconteceu concretamente nos últimos dias? Em que momento percebeu que já não estavam reunidas condições para continuar como treinador do Torreense?
Naná: Em primeiro lugar, gostava de dizer que só falo sobre o assunto porque tenho uma ligação com elevado compromisso com o futsal há mais de 40 anos e considero importante explicar a minha decisão. Entendo que devo esclarecer as razões pelas quais deixei de exercer funções no Torreense.
O momento em que tomei a decisão de suspender as minhas funções como elemento da equipa técnica foi exatamente no mesmo dia em que senti que ia entrar.
Zona Técnica Futsal — Esteve ausente dos últimos dois jogos. Foi uma decisão sua, uma decisão do clube ou resultou de uma situação em que já não sabia exatamente qual era o seu papel dentro da estrutura?
Naná: A decisão foi minha.
Houve uma reunião de staff no dia 14 de setembro. Ficou, pensava eu, esclarecido quais as minhas funções dentro da estrutura técnica do clube.
No dia seguinte participei no Media Day da FPF como treinador do Sport Clube União Torreense.
No dia 16 de setembro, quando eu ia preparado para uma reunião de equipa técnica com o intuito de preparar a estratégia do jogo contra o Braga, foi-me dito pelo coordenador que não seria necessário haver reunião porque já sabia como ia abordar o jogo em Braga.
Foi exatamente neste momento que decidi que iria suspender as minhas funções até uma conversa com a direção do clube.
Zona Técnica Futsal — Como descreve a articulação de funções dentro da estrutura técnica e em que matérias começaram a surgir diferenças na forma de trabalhar?
Naná: O acordo previa a participação do Barth como treinador-adjunto, incluindo no planeamento dos treinos e dos jogos. A dificuldade esteve no facto de as decisões nessas matérias serem tomadas sem o meu conhecimento, participação ou concordância.
Na prática, esta equipa técnica nunca funcionou.
Zona Técnica Futsal — Como estava definida essa partilha de responsabilidades e o que acabou por ser diferente na prática?
Naná: A fórmula como fizemos o nosso acordo englobava a participação do coordenador/diretor, também como treinador-adjunto, logo teria todo o direito a participar no planeamento dos treinos e jogos.
No entanto, o que se verificou não foi apenas uma participação, mas sim tomar todas as decisões sem o meu conhecimento, participação ou concordância.
Zona Técnica Futsal — A saída foi uma decisão sua, foi-lhe comunicada pelo Torreense ou chegou-se a um ponto em que ambas as partes perceberam que a continuidade era impossível?
Naná: No dia 10 de setembro, véspera da primeira jornada, comuniquei oficialmente a um elemento do staff. Fi-lo para não dizerem que o iria fazer por causa dos resultados.
Informei que não concordava com o rumo que levou a pré-época, não concordava com o modelo de jogo implementado pela equipa técnica e que, no início de outubro, altura da paragem do campeonato, iria reunir todo o staff para comunicar a minha frustração pelo facto de não haver nada no jogo do Torreense que tivesse sido indicado ou sugerido por mim.
Todas as minhas propostas para o modelo de jogo tinham sido ignoradas pela restante equipa técnica e seria minha intenção, caso as coisas não mudassem, apresentar a minha demissão.
Disse-lhe, inclusive, que não o faria já para não criar ruído ao redor do plantel.
Antecipei esta minha comunicação ao staff porque surgiu a tal reunião no dia 14 de setembro e achei que seria uma boa oportunidade, informando antecipadamente o Barth que o ia fazer, para desabafar o que me andava a perturbar há bastante tempo.
Zona Técnica Futsal — Tinha afirmado que queria ajudar o clube a alcançar o melhor resultado da sua história na Liga Placard. É frustrante sair sem ter tido verdadeiramente tempo para desenvolver essa ideia?
Naná: Quando fiz essa afirmação foi no Press Day da FPF. Recordo que foi no dia seguinte à reunião de staff em que expus os problemas e que saiu dessa reunião que o modus operandi iria mudar e que iria de acordo com o estabelecido inicialmente.
Nesse mesmo dia também disse que seria necessário aos clubes médios da Liga Placard criarem situações de jogo diferentes, criativas, de modo a colocar novas dificuldades aos adversários.
Para colocar essas ideias em prática, precisava de participar no planeamento e nas decisões técnicas nos termos que tínhamos acordado. Como isso não se concretizou, não estavam reunidas as condições para desenvolver o trabalho que me tinha proposto fazer.
Zona Técnica Futsal — Há alguma coisa que tenha acontecido internamente e que considere importante tornar pública para que se perceba verdadeiramente porque deixou o Torreense?
Naná: Quando suspendi as minhas funções foi com o intuito de falar e expor a situação à direção do clube e, consequentemente, poder contribuir — foi a forma que encontrei — para a melhoria dos treinos e para o projeto do SCUT Futsal ter maior correspondência com o investimento feito.
O plantel construído pelo diretor desportivo tem qualidade. Na minha avaliação, seria importante desenvolver uma ideia de jogo mais concreta e objetiva.
Consegui falar e expor à direção do clube a minha opinião e recebi um feedback bastante positivo pela forma como o fiz.
No entanto, a decisão do clube já vinha tomada, de manter a coordenação da modalidade conforme inicialmente prevista.
Zona Técnica Futsal — Olhando para trás, arrepende-se de ter aceite o projeto do Torreense?
Naná: Só passando pelas situações é que vamos tomando decisões.
Na altura do convite só tinha razões para aceitar. Até posso enumerar algumas para ter aceitado com muito gosto o convite do Barth e do Torreense: o Torreense é um clube sério e apetecível, geograficamente encaixa na minha vida e está na Liga Placard.
Depois destes anos todos a criar condições de vida, podia atingir um dos meus objetivos desportivos: treinar uma equipa profissional.
Zona Técnica Futsal — E aos adeptos do Torreense, que provavelmente estarão a tentar perceber por que motivo um projeto iniciado há tão pouco tempo termina desta forma?
Naná: Não tive oportunidade de criar relação. Vou manter a opinião que tinha antes.
Desejo muito que continuem a apoiar todas as modalidades, em particular o futsal e o futebol, masculino e feminino, porque o SCUT é o clube que representa muito bem o Oeste no panorama nacional e agora europeu.
Zona Técnica Futsal — Se pudesse resumir numa frase porque é que Fernando Paiva já não é treinador do Torreense, o que diria?
Naná: É muito fácil.
«Já não sou, oficialmente, treinador do Torreense porque alguém não cumpriu o acordo que fez comigo.»
A saída de Fernando Paiva encerra assim um ciclo muito curto no Torreense, mas cuja explicação, na versão do próprio treinador, ultrapassa os resultados obtidos nas primeiras jornadas.
Naná coloca o foco sobretudo no modelo de funcionamento da estrutura técnica, na participação nas decisões e nas condições que entende terem sido inicialmente acordadas para o exercício das suas funções.
Apesar do desfecho, o treinador deixa palavras positivas relativamente ao clube, à qualidade do plantel e ao potencial do projeto, desejando que os adeptos continuem a apoiar o futsal e as restantes modalidades do Torreense.
Uma passagem breve que termina cedo na temporada, mas sobre a qual Fernando Paiva decidiu agora apresentar publicamente a sua versão dos acontecimentos.