Maria Martins: «Estamos a construir um caminho e a nossa equipa vai crescer com o tempo»
Maria Martins mostrou-se satisfeita com a conquista da Supertaça diante do Nun’Álvares, mas deixou também uma mensagem exigente sobre aquilo que o Benfica ainda precisa de melhorar.
Sobre a análise ao encontro, a treinadora encarnada reconheceu que o golo madrugador acabou por retirar algum ritmo à equipa nos minutos seguintes:
«O facto de começarmos a ganhar muito cedo fez com que, de certa forma, durante alguns minutos não quiséssemos jogar e permitiu que o Nun’Álvares crescesse um pouco na primeira parte.»
Ainda assim, destacou a capacidade do Benfica para subir a pressão e condicionar a construção adversária:
«A partir de meio da primeira parte, o Benfica foi superior. Conseguimos ser mais pressionantes, roubar bolas no meio-campo ofensivo e dificultar a construção ofensiva do Nun’Álvares. Dois dos nossos golos surgem precisamente após recuperações no meio-campo ofensivo.»
A eficácia foi, para Maria Martins, uma das grandes diferenças da final.
«Fomos eficazes. Estes jogos não se ganham se não formos eficazes e nós conseguimos sê-lo.»
Apesar do 3-0 ao intervalo, a treinadora considera que o Benfica poderia ter aproveitado melhor algumas situações de transição:
«Podíamos ter marcado mais. Tivemos várias oportunidades em transição e não conseguimos aproveitá-las para criar ainda mais perigo. A Odete também fez algumas defesas bastante complicadas.»
«Controlámos demasiado o resultado»
Maria Martins foi particularmente crítica relativamente à segunda parte, admitindo que a vantagem confortável condicionou a postura da equipa.
«O facto de irmos para o intervalo a ganhar 3-0 fez com que controlássemos demasiado o resultado na segunda parte e não quiséssemos ter tanta bola.»
E deixou claro que esse comportamento não corresponde ao Benfica que pretende construir:
«Queremos mais. No Benfica somos os primeiros a exigir de nós próprios e temos de ter consciência de que temos de fazer melhor.»
«Na segunda parte temos de ter mais bola e controlar melhor o jogo com bola. Ainda assim, penso que, de uma maneira geral, somos vencedores justos.»
Uma nova identidade: 3x1, 4x0 e jogadoras que «leiam o jogo»
Um dos pontos mais relevantes da conferência surgiu quando Maria Martins explicou aquilo que pretende transformar no Benfica.
«Viemos precisamente para criar uma nova identidade. Queremos que equipa técnica e jogadoras sejam uma só equipa, e não duas equipas. Uma verdadeira equipa em que toda a gente acredita e confia em toda a gente.»
A treinadora recordou que teve apenas cinco semanas para implementar alterações profundas:
«Jogámos contra um adversário que está junto, com o mesmo treinador e grande parte do mesmo plantel, há diversos anos. Nós chegámos com cinco semanas de trabalho e conseguimos mudar completamente o sistema defensivo, mudar o sistema ofensivo e criar uma nova identidade.»
E deixou uma indicação particularmente interessante sobre a ideia ofensiva que quer implementar:
«Queremos que o Benfica não ataque apenas em 3x1, mas que tenha variabilidade ofensiva e possa alternar entre o 3x1 e o 4x0.»
Maria Martins admite que o processo está ainda numa fase inicial:
«Não está minimamente perfeito, mas é essa a identidade que queremos: uma equipa que tenha variabilidade de jogo e que seja capaz de manter a pressão.»
Mais do que automatismos rígidos, a treinadora quer desenvolver a capacidade de decisão das jogadoras.
«Não queremos jogadoras que executem sem ler o jogo. Queremos jogadoras que leiam o jogo e ajam em função do que está a acontecer: onde está a bola, qual é a orientação da jogadora com bola. Queremos que percebam o jogo e ajam em conformidade.»
«O futsal feminino do Benfica estava um pouco estagnado»
Maria Martins abordou também o significado pessoal do primeiro troféu conquistado ao serviço das encarnadas.
«Estou feliz por mim e pela minha equipa técnica. Somos muito dedicados e comprometidos com a evolução das jogadoras. Tenho um sentimento especial porque é o meu primeiro título e também foi por causa disso que vim para o Benfica.»
Mas deixou uma declaração ainda mais marcante relativamente ao projeto que encontrou:
«O nosso objetivo foi fazer crescer o Benfica e o futsal feminino do Benfica, que, na nossa opinião, estava um pouco estagnado nas últimas duas épocas.»
A treinadora recusou, contudo, a ideia de que a vitória represente já uma grande diferença competitiva para o Nun’Álvares:
«Ainda não houve uma grande superioridade em relação ao nosso adversário.»
Para Maria Martins, conquistar a Supertaça é sobretudo importante pelo impacto que poderá ter no processo que está a implementar.
«O facto de ganhar facilita o trabalho que vem a seguir. Acredito que esta vitória vai facilitar o trabalho seguinte.»
E terminou com uma mensagem clara para o grupo:
«As jogadoras têm de perceber que nada está concluído. Estamos a construir um caminho e esse caminho vai ser duro.»
«Na próxima vez que defrontarmos este adversário, estará certamente mais preparado para jogar contra nós. Nós também temos de melhorar e acredito plenamente que vamos conseguir fazê-lo. A nossa equipa vai crescer com o tempo.»