Bruno Travassos: «O jogo do treinador joga-se todos os dias, longe dos holofotes»
A liderança de uma equipa não se constrói apenas no quadro tático, nos sistemas escolhidos ou na preparação do próximo jogo. Para Bruno Travassos, vice-presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF), o verdadeiro trabalho do treinador começa muito antes da competição e passa pela construção de uma cultura, de uma identidade e de uma direção coletiva.
Num artigo publicado no Jornal Record, a 27 de agosto de 2026, Bruno Travassos aborda aquilo a que chama “O Jogo do Treinador”, defendendo uma visão de liderança em que os jogadores são fundamentais, mas em que a responsabilidade de definir o caminho continua a pertencer ao treinador.
“Sem jogadores não existe liderança. Mas liderar não significa governar por decreto, referendo ou conveniência.”
Para Bruno Travassos, ouvir e envolver os jogadores não significa transferir para o balneário a definição permanente do rumo da equipa.
O risco, alerta, surge quando as decisões começam a depender excessivamente dos resultados imediatos, dos estados de espírito ou dos interesses individuais.
“Um treinador que delega o rumo da equipa nas pequenas vitórias e derrotas, ou no estado de espírito e nos interesses de cada jogador, do balneário, não está a liderar.”
Na sua leitura, esse comportamento pode ajudar a resolver problemas circunstanciais, mas dificilmente permite construir algo sustentável.
Liderar é definir uma direção
Bruno Travassos coloca no treinador uma responsabilidade que considera “inegociável”: definir o caminho e criar condições para que esse caminho seja seguido.
Isso implica selecionar informação, antecipar cenários, estabelecer prioridades e dar coerência às decisões individuais através de uma lógica coletiva.
É também neste ponto que surge uma reflexão importante sobre o modelo de jogo.
“O modelo de jogo não deve ser um catálogo de sistemas ou métodos, mas a expressão de princípios que orientam comportamentos, consolidam uma identidade e ajudam cada jogador a perceber o seu papel dentro da lógica coletiva.”
A ideia ultrapassa a escolha entre sistemas ou estruturas.
O modelo deve servir como uma referência para a equipa interpretar o jogo, perceber responsabilidades e encontrar respostas dentro de princípios partilhados.
Adaptar sem perder identidade
A liderança, na visão apresentada pelo vice-presidente da ANTF, não significa rigidez.
O treinador deve compreender o contexto, gerir expectativas e adaptar-se aos diferentes momentos da temporada.
Pode ser necessário alterar métodos, sistemas ou prioridades. O que não deve mudar constantemente é a direção estratégica da equipa.
“Isso pode exigir ajustes no método, no sistema e sobretudo redefinição de prioridades e adaptação ao momento, mas nunca colocar em causa a visão, a direção estratégica, nem a responsabilidade coletiva.”
É uma distinção importante também no futsal, onde a velocidade de decisão, a variabilidade dos contextos e a necessidade constante de adaptação obrigam o treinador a ajustar comportamentos sem perder os princípios que sustentam a identidade da equipa.
O trabalho que não aparece no jogo
Bruno Travassos termina com uma crítica à visão do treinador demasiado centrada no próximo resultado.
Para o dirigente da ANTF, a obsessão exclusiva pelos sistemas, movimentações táticas ou fórmulas imediatas para vencer pode revelar uma compreensão limitada da verdadeira dimensão da função.
“Quando um treinador vive apenas obcecado com sistemas, movimentações táticas ou fórmulas para ganhar o próximo jogo, é porque que ainda não compreendeu o jogo para além dos holofotes...”
O verdadeiro “jogo do treinador”, defende, acontece diariamente.
Na forma como se cria uma cultura. Na coerência da liderança. Na capacidade de potenciar talento individual sem destruir a lógica coletiva. E na construção de uma identidade suficientemente forte para sobreviver às vitórias, às derrotas e às inevitáveis oscilações de uma época.
“O jogo do treinador joga-se todos os dias, longe dos holofotes, na construção de uma cultura, de uma liderança coerente e de uma identidade coletiva que potenciam o talento individual, fortalecem a equipa e sustentam o sucesso ao longo do tempo.”
Uma reflexão que, embora construída a partir do futebol, encontra uma aplicação direta no futsal, onde o treinador precisa permanentemente de equilibrar modelo, liderança, adaptação, autonomia do jogador e identidade coletiva.
Fonte: Bruno Travassos, vice-presidente da ANTF — Jornal Record, 27 de agosto de 2026.