Luís Estrela leva as lições do desporto de elite para o mundo empresarial
O que podem as empresas aprender com o desporto de alta competição? É a questão que serve de ponto de partida para o mais recente artigo de Luís Estrela, treinador português atualmente ligado à Federação Indonésia, publicado na newsletter Sports Immersion, no LinkedIn.
Intitulado “How Elite Sport Redefines Business Performance – From High-Performance Teams to Sustainable Organizational Excellence”, o artigo publicado a 24 de agosto estabelece uma ligação entre os princípios utilizados diariamente no alto rendimento desportivo e aquilo que pode ser transportado para a gestão e liderança das organizações.
Com uma carreira ligada ao futsal, direção técnica e desenvolvimento desportivo, Luís Estrela parte de uma realidade muito presente nos desportos coletivos: juntar os melhores jogadores não significa necessariamente construir a melhor equipa.
O talento individual é fundamental, mas, na visão do técnico português, precisa de estar enquadrado por um espírito coletivo, objetivos comuns e uma estrutura organizada capaz de potenciar as qualidades de cada elemento.
É a partir desse princípio que estabelece uma sequência aplicável tanto ao desporto como às empresas: talento, definição de funções, confiança, comunicação, responsabilidade e, finalmente, performance.
Performance não pode existir sem recuperação
Um dos pontos centrais da reflexão de Luís Estrela está naquilo que denomina de “performance sustentável”.
No desporto de elite, exigir permanentemente intensidade máxima a um atleta sem lhe proporcionar períodos adequados de recuperação acaba inevitavelmente por prejudicar o rendimento. Para o treinador português, o mesmo princípio deve ser aplicado aos profissionais no contexto empresarial.
Quanto maior for a acumulação de stress, maior poderá ser a quebra de atenção, capacidade de decisão e comunicação, aumentando consequentemente a possibilidade de erro.
Por isso, Luís Estrela propõe uma mudança importante na forma de avaliar o rendimento. Mais do que perceber apenas se determinada pessoa está a produzir resultados num determinado momento, importa perceber se consegue manter esse nível de desempenho ao longo do tempo.
Nesse processo, fatores como sono, exercício físico, alimentação, hidratação, recuperação mental e gestão do stress passam a fazer parte da própria construção da performance.
O objetivo, sustenta, não passa por eliminar completamente o stress — algo que também é impossível no desporto de alta competição — mas por desenvolver ferramentas para responder à pressão, gerir o seu impacto e recuperar posteriormente.
Comunicação simples quando aumenta a pressão
Outra das aprendizagens retiradas do desporto passa pela clareza da informação e definição das funções dentro de uma equipa.
Objetivo coletivo, papel individual, critérios para medir o sucesso e definição de quem decide e executa precisam de estar perfeitamente identificados.
Quando isso não acontece, até um grupo composto por atletas de enorme qualidade pode ter dificuldades em funcionar como uma verdadeira equipa.
Luís Estrela transporta essa realidade para o universo empresarial e destaca um princípio particularmente relevante em ambientes de elevada exigência: quanto maior for a pressão, mais simples deverá ser a comunicação.
Errar também faz parte do alto rendimento
A segurança psicológica constitui outro dos pilares abordados pelo treinador português.
Num ambiente verdadeiramente orientado para o alto rendimento deve existir confiança suficiente para que cada elemento consiga admitir um erro, pedir ajuda, colocar dúvidas, discordar de forma construtiva ou apresentar novas ideias sem receio de humilhação.
Exigência e capacidade de aprender com os erros não são, portanto, conceitos incompatíveis. Pelo contrário, podem fazer parte do mesmo processo de desenvolvimento individual e coletivo.
Luís Estrela aborda ainda a importância da visualização e preparação mental, prática habitual entre atletas de elite que considera igualmente aplicável antes de uma apresentação, negociação, reunião decisiva ou conversa profissional particularmente exigente.
A preparação não deve passar apenas por imaginar o sucesso, mas também por antecipar possíveis obstáculos e preparar previamente a resposta perante cenários inesperados.
Ser “1% melhor” não significa exigir sempre mais
O artigo termina com uma interpretação particularmente interessante do princípio “1% Better Every Day”.
Para Luís Estrela, melhorar diariamente não significa obrigar alguém a produzir mais 1% todos os dias. O alto rendimento também exige perceber quando acelerar, quando recuperar, quando adaptar e quando voltar a competir.
A evolução nasce, assim, da capacidade de aprender com os erros, recuperar e regressar novamente preparado para produzir, construindo um crescimento sustentado em vez de procurar permanentemente atingir o limite.
Na transposição destas ideias para o mundo empresarial, o técnico português identifica oito áreas estratégicas: selecionar as pessoas certas, integrá-las, clarificar funções e objetivos, desenvolver competências, comunicar, monitorizar cargas e sinais de sobrecarga, proporcionar recuperação e criar condições para reter talento.
A mensagem deixada por Luís Estrela ultrapassa, assim, as quatro linhas da quadra. O alto rendimento não se constrói exclusivamente através do talento ou de uma exigência permanente de resultados. Organização, confiança, comunicação, recuperação, capacidade de adaptação e melhoria contínua são princípios que ajudam a construir equipas vencedoras no desporto e que, na sua visão, podem igualmente contribuir para organizações empresariais mais eficientes e sustentáveis.
Ler o artigo completo de Luís Estrela no LinkedIn