Raquel Santos deixa SL Benfica com críticas duras à gestão: "Tratam os outros como lixo"
A ala portuguesa Raquel Santos publicou esta sexta-feira uma extensa e emotiva mensagem de despedida do SL Benfica, o clube que representou durante 10 temporadas consecutivas, entre 2016/17 e 2025/26. Numa publicação nas suas redes sociais, a jogadora deixou palavras marcantes sobre o seu percurso encarnado, revelando ainda algumas críticas contundentes à gestão do clube, e acabando por abraçar as pessoas e as memórias que leva consigo desta longa passagem por Lisboa.
Nascida a 4 de abril de 1998, em Portugal, Raquel Esteves Santos, agora com 28 anos, é uma ala canhota com 1,69m de altura e um percurso desportivo verdadeiramente enorme ao serviço do SL Benfica. Iniciou o percurso no futsal ao serviço do GD Turcifal (formação em futebol), passando depois pelos Arneiros e Os Paulenses (2011/12-2015/16), antes de chegar ao SL Benfica em 2016/17. Cumpriu 10 temporadas consecutivas no clube da Luz, tendo disputado ao longo desse período centenas de jogos e conquistado um palmarés impressionante: 8 I Divisão Feminina de Futsal, 8 Taça de Portugal Feminina, 6 Supertaça Feminina, 3 Taça da Liga Feminina, 1 Victory Day Futsal Women Cup e ainda um Campeonato da Europa Feminino de Futsal, este último ao serviço da Seleção Nacional. Na temporada passada, disputou 29 jogos com 11 golos apontados. Ao nível internacional, Raquel Santos conta com 38 internacionalizações e 12 golos ao serviço da Seleção Nacional A de futsal.
Nas primeiras palavras da despedida, a jogadora foi honesta sobre o tempo que necessitou para processar o adeus. "Depois de um tempo a processar e a tentar encontrar as palavras certas, despeço-me do meu clube do coração. Daquele que tive o prazer de chamar casa durante 10 anos", começou por dizer. Reconheceu que estes foram os anos mais intensos da sua carreira, "cheios de momentos maravilhosos, marcantes e dignos de recordar para o resto da vida", mas também "outros naturalmente maus e muito duros, mas que fazem parte". Confessou ter escolhido ultrapassar os momentos difíceis porque "lá no fundo não conseguia ser doutra forma e porque queria honrar este clube como ele merece, incansavelmente".
Sobre a última temporada em particular, Raquel Santos admitiu que o momento foi difícil física e mentalmente: "Este ano foi mais duro que nunca a nível físico e mental e, por mais que tentasse, não consegui ajudar a equipa como queria e estar ao nível sempre quis estar". Confessou ter sabido, "com medo, mas racionalmente", que o momento de se despedir podia chegar um dia, "mas não desta forma".
Numa passagem particularmente forte, Raquel Santos dirigiu críticas contundentes à gestão do clube: "Como muitos dizem e bem, o Benfica são as pessoas e só quem passa cá realmente sabe o quão grande este clube é. Mas nem sempre tem pessoas competentes e ao seu nível a geri-lo. Antes pelo contrário. Tratam os outros como lixo e como mais um. O Benfica tem a sua história e os seus valores e jamais deveriam ser ultrapassados por alguém. Não fico onde não me querem, mas naturalmente exigia, como qualquer atleta, respeito, humanidade e consideração. O mundo do desporto pode muitas vezes ter este lado desumano mas acredito plenamente que o universo tem tudo reservado para cada um de nós".
Deixando para trás "o mau e focando apenas no que realmente importa", Raquel Santos valorizou as pessoas e as memórias que leva consigo: "Levo comigo as pessoas que fizeram parte deste percurso e de todos os momentos inesquecíveis que vivi. Levo o carinho e a grandeza dos adeptos, levo colegas a quem posso chamar de amigas. Levo memórias que vou guardar sempre comigo. Levo também os troféus, mas, nesta fase, consigo olhar para eles como um complemento de tudo. Apesar do meu lado competitivo e da exigência do desporto e do clube, são as pessoas, as experiências e as ligações que ficam para mim como o mais importante".
Nos comentários da publicação, Raquel Santos dedicou ainda uma mensagem especial a Inês Fernandes, capitã e colega que também sai do SL Benfica. Sobre a colega, referiu: "Dentro destes 10 anos, foste das mais influentes e serás sempre para mim e para todas, a definição de capitã. Apesar de me faltar muitas palavras para descrever o que sinto, quero agradecer, de coração, o que sempre foste para mim e para esta equipa. Afirmo de forma clara que, sem ti, ficamos todas mais vazias e mais perdidas". Referindo a estabilidade silenciosa, serenidade, humildade e humanidade trazidas pela capitã, revelou uma frase muito repetida por Inês esta última temporada: "divirtam-se a jogar" e admitiu: "Erradamente podemos ter deixado de o fazer, de forma inconsciente, por nos consumirmos por situações que muitas vezes não controlávamos".
Agradeceu ainda a todas as colegas com quem se cruzou, às várias equipas técnicas, aos fisioterapeutas, médicos, psicólogos, fisiologistas, nutricionistas e massagistas que "muitas vezes são desvalorizados", mas que tanto a ajudaram. "Levo-vos a todos, sem exceção, no coração", referiu. E terminou com uma frase que resume tudo: "Sou grata por ter representado o meu clube todos estes anos. Saio de consciência tranquila porque dei tudo aquilo que podia e não podia, para representar, amar e viver o Benfica como os grandes que cá estão e que cá passaram. OBRIGADA MEU BENFICA, ETERNAMENTE UMA DE VOCÊS".