Paulo Roxo ao Record — "Saí do Benfica porque houve interferência do Raúl Moreira"
Reprodução da entrevista publicada pelo Jornal Record
O treinador brasileiro Paulo Roxo, de 38 anos, que na temporada 2025/2026 conduziu a equipa feminina de futsal do SL Benfica à conquista do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal, abriu o livro numa entrevista arrasadora ao jornal Record, publicada pelo jornalista Ricardo Gomes. O técnico brasileiro coloca "os pontos nos is" sobre o adeus ao clube da Luz, criticando duramente a postura do coordenador da secção de futsal, Raúl Moreira, e desmentindo a versão oficial de que teria pedido para sair. Uma entrevista bombástica que a Zona Técnica Futsal reproduz na íntegra pelo interesse público das declarações.
A entrevista completa (perguntas de Ricardo Gomes, respostas de Paulo Roxo)
Conquistou o campeonato e a Taça de Portugal esta temporada. Sai com o sentimento de missão cumprida?
"São os dois títulos mais importantes, mas fica um sabor amargo por não ter vencido a Supertaça e a Taça da Liga. A Supertaça apenas com três semanas de trabalho, era muita coisa nova e a 17 segundos do fim perdemos uma bola que dá transição e golo. Depois a Ana Catarina também foi expulsa aos três minutos e isso condicionou a equipa. A Taça da Liga foi um período em que estávamos fisicamente com sequelas do Mundial: a Maria Pereira, por exemplo, o médico tinha a deixado jogar por dez minutos e eu arrastei para mais três. Ela não tinha condições para tanto e perdemos nos penáltis. Depois entrámos nos eixos e conseguimos aquilo que queríamos."
Acredita que esses desaires foram fundamentais para o sucesso da equipa na reta final?
"Quando cheguei comentei com a Rita Martins [team manager] que nunca tinha visto uma equipa, que ganhou tanto, desconfiada da própria capacidade. E a estreia no campeonato foi logo com o Atlético, que as tinha eliminado na última época. Mas ao intervalo já estava 6-0 e fomos começando a construir a partir daí. Sabia que íamos chegar preparados para a reta final e tive o cuidado com a condição física das jogadoras: só perdemos a Inês na final. Mas nunca desconfiei da capacidade daquelas raparigas e nos últimos anos os resultados falam por si só."
Quando a equipa saiu derrotada no jogo 1 da final [derrota por 4-2], sentiu que podia tremer outra vez?
"A Inês Fernandes foi fundamental nesse aspeto, até porque no balneário falava-se em vitória por 3-0 ou 3-1. Mas ela disse: 'Malta, preparem-se para uma maratona. Estamos diante do nosso maior adversário de todos os tempos'. Não abalou a nossa confiança. Sabíamos que precisávamos de ganhar um jogo em Fafe para voltar a ter o fator casa e foi isso que aconteceu."
E porque é que o ciclo chega ao fim após uma temporada?
"Entendo que o clube queira mudanças e respeito isso, mas não gosto de como foi feito: ter sido colocado contra cinco milhões de adeptos. Da mesma maneira que o Raúl Moreira [coordenador de futsal] me levou, acho que ele tinha que ter evitado a saída. Desde a assinatura do contrato que estava errado, ou seja foi uma consequência de factos e de confrontos entre mim e ele. E eu sempre em prol do grupo. Já imaginava que isto ia acontecer porque já conheço o modus operandi dele, mas achei que comigo ia ser diferente."
Após a conquista do título, enviou algumas farpas internas. Eram direcionadas para o próprio?
"Única e exclusivamente para o Raúl Moreira [coordenador do futsal]. Dizia que as jogadoras tinham de fazer assim, pois da maneira como jogavam iríamos perder o campeonato. Foi tentando colocar alguma coisa dele. Tem todo o direito de dar opinião, mas foi desgastante porque chegou a uma altura em que percebi que se fosse à minha maneira não ia correr bem e que não ia ter vida longa no clube por não fazer aquilo que é o seu modus operandi. Seria mais fácil para ele [Raúl Moreira] se não ganhássemos."
Foi uma das razões que o levou a sair?
"Não há razão que não seja essa. Eu vou para o Benfica num acordo com o Raúl de dois anos de contrato profissional e dentro das coisas que um treinador pede, e como sou do norte, era se seria possível o clube pagar o bilhete para a minha mãe ajudar a minha mulher que estava com duas crianças pequenas e trabalhava. E ainda era a época do Fernando Tavares. Foi prontamente aceite, mas começa o ano e com 10/15 dias, a Rita Martins pede-me o recibo verde. Ou seja, não era um contrato profissional, mas sim de trabalho. E falei com o Raúl a dizer que estava errado e ele calma que vou resolver. Uma vez, duas vezes, três vezes, e não queria passar por chato. Mas ele nunca resolveu e a coisa foi caminhando, foram passando uns meses, perdemos a Supertaça e depois a Taça da Liga e aí o Raúl desaparece durante duas semanas. Nessa altura sai a notícia de que a Maria Martins já estava contratada. Não saí porque a equipa jogava mal, mas porque houve interferência no meu trabalho. E a partir daí fiquei isolado."
Mas chegou a reunir-se consigo para falar sobre o futuro?
"Passado essas semanas marca uma reunião, disse que o meu trabalho estava muito abaixo e que, inclusive, a equipa jogava pior do que no ano passado. Arriscou a dizer que, provavelmente, íamos perder todos os títulos. Lamentou que a notícia tivesse saído antes de ter falado comigo, mas era uma decisão já assente na cabeça dele e tinha de ser profissional até ao fim."
Numa entrevista à BTV, o Tomás Barroso [diretor das modalidades] disse que o Paulo tinha recebido uma proposta a meio da época e tinha pedido para sair. É verdade?
"Nada, nada, nada. Em dezembro estava a passear pelo pavilhão com a Rita e encontrámos o Raúl e o Nuno Custódio, que era uma pessoa incrível. E falámos porque ainda não tinha recebido o dinheiro do bilhete de avião da minha mãe: só que essa promessa tinha sido em agosto e até lá nada. Referi que tinha dois anos de contrato e o mesmo estava errado, como é que poderíamos resolver. E o Nuno: 'Olha o Fernando Tavares saiu, agora em janeiro entra o Tomás Barroso. Vou te dar duas opções, ou falas com o Tomás e ele resolve ou através das faturas. E o Raúl aproveitou para dizer que também podiam diluir o valor do bilhete no próximo ano. O Nuno ainda brincou: 'A não ser que o treinador ainda saia'. Ao que o Raúl diz: 'Treinador meu fica para dois anos'. E aí vou ter a conversa com o Tomás, explico a situação daquilo que já vinha acontecendo, com a interferência do Raúl no meu trabalho e também fui muito sincero: se não ganhasse podiam-me mandar embora. E também se ganhasse todos os jogos e não conseguisse influenciar as raparigas também me podia despedir. Porque está visto que qualquer treinador ganha com o Benfica e não é isso que quero, mas sim de passar aquilo que é o meu conhecimento. O Tomás fala de dezembro: o campeonato está parado por causa do Mundial e eu com nove vitórias em nove jogos, melhor ataque e segunda melhor defesa. Depois de tanto esforço de onde eu vim, do Nogueiró - passei pelos sub-13 como adjunto - quem é que em conscientemente pede para sair do Benfica... três meses depois de lá chegar? Ninguém! Nunca tive ofertas, mas acho que por ele não ter conseguido mexer com o meu trabalho internamente – porque tentava queimar-me junto dos superiores que não tinha acesso - dizia que tinha pedido para sair. Abri mão de muita coisa para estar no Benfica, de estar longe dos meus filhos. E em três meses ia pedir para sair? Impossível, estava a viver um sonho."
Sente alguma mágoa por como as coisas terminaram?
"Não guardo mágoa, mas fica a ideia de que o trabalho ficou pela metade. Foi muito difícil conquistar os adeptos e até hoje não tenho unanimidade. Até pelo meu passado: fui um grande profissional e joguei no rival, mas não sou sportinguista, nem nasci benfiquista, infelizmente. Agora vou voltar para o Nogueiró e vou defendê-lo do mesmo jeito que defendi o Benfica. Isso faz parte do meu profissionalismo. Não gosto de perder, nem na playstation com o meu filho. E não é o facto de sair, até porque digo sempre que o clube é soberano e pode mandar o treinador embora e contratar o jogador quando quiser, mas que não mintam para os adeptos. Nunca pedi para sair, provavelmente chegou oferta em maio a perguntar qual era a minha situação, mas aí já se sabia publicamente que ia sair. Só acertei com o Nogueiró há duas ou três semanas."
Chegou a fazer algum planeamento para a próxima temporada?
"Sim, em dezembro tivemos uma reunião. Já sabíamos que a Inês Fernandes ia parar, a Bruna estava abaixo do esperado e identificámos três jogadoras. Mas na hora da apresentação, o Raúl disse que não assinava o plantel porque tinha a Raquel Santos e a Sara Ferreira. E eu sempre bati na tecla de que o meu plantel era com a continuidade das duas."
E as jogadoras sabiam?
"A Raquel é outro caso porque, pelo que sei, duas semanas antes da final prometeram-lhe a continuidade para na semana do jogo 5 dizerem o contrário. Uma coisa para desestabilizar a equipa. Muito provavelmente, e isto já é meu, porque seria mais fácil para ele justificar a minha saída se não ganhássemos o título."
Nesta aventura toda que viveu na Luz falou muito da Rita Martins. Foi um suporte para si?
"Fundamental! Cheguei ao feminino sem referências, apenas Benfica e Nun'Álvares. E ela guiou-me, tal como a Inês Fernandes e a Ana Catarina, que me ajudaram muito. Aliás, almoçava com as jogadoras e o Raúl dizia que não tinha de estar perto delas, que me iam fazer a cabeça. Foi muita pressão psicológica. Para mim os anos 80 ou 90 não funcionam. Se gostam da minha presença, se gostam de trocar cromos, vamos falar, porque ouvindo-as consigo entender melhor esta vertente feminina."
E como era essa relação com as jogadoras?
"No final do jogo eu e a Fifó esclarecemos as coisas, mas nunca teve nada. É como eu digo: no namoro tudo é bom e no casamento aparece sempre o mal e o bom das pessoas. Mas foi sempre em prol do grupo, em prol de melhorar. As mulheres são normalmente mais questionadoras do que os homens e precisava muito delas dentro de campo porque era o meu primeiro ano no futsal feminino. Ouvia muito, mas também tinha que decidir e às vezes decidia de uma forma que não entendiam bem, mas nunca houve nada com as jogadoras. Pelo contrário, aprendi com elas, a mentalidade vencedora delas é incrível, não gostam de perder. Foi um ano incrível. Poucas coisas as afetaram, porque isso faz parte do treinador, estava ali para protegê-las. Faria tudo novamente."
Falou no futuro... vai regressar ao Nogueiró como treinador principal?
"Vou para a equipa principal e coordenador da formação. O primeiro objetivo é estruturar o clube, que passou a ser utilidade pública, por isso os patrocinadores podem chegar mais firme economicamente. Mas estabilizar, trabalhar com miúdos e tentar manter a equipa na segunda divisão no próximo ano, que vai ser difícil. E vamos praticamente com 90% da formação: é o meu projeto, comecei há uns anos, deu certo, mas houve algumas coisas que ficaram em aberto com a minha saída para o Famalicão. Gostaria de ter dado uma pausa porque foi cansativo: o Benfica rouba-te muita energia, mas como precisamos de pagar o leite das crianças não podia ficar parado. E voltar para casa é voltar para a base. Costumo dizer que quando alguém sai de um relacionamento, é preciso voltar para casa dos pais para se refazer."