Há derrotas que partem.
E há derrotas que moldam.
O Europeu 2026 não terminou como Portugal sonhava. A taça não veio. A medalha foi de prata. Mas quem ouviu Jorge Braz percebeu que aquilo não era apenas a análise de um jogo - era o retrato de uma liderança genuína, crua, verdadeira.
Jorge Braz não se esconde.
Assumiu erros. Falou das transições mal defendidas. Falou da ansiedade nos momentos decisivos. Falou daquele “quisemos demais” que às vezes denuncia o tamanho do sonho. Não houve desculpas, nem distrações. Houve responsabilidade.
E isso é liderança.
Ser genuíno quando dói.
Ser frontal quando é mais fácil proteger-se.
Ser líder não só quando se vence - mas sobretudo quando se perde.
Braz falou com tenacidade. Com a voz cansada, mas com a convicção intacta. Porque ele sabe que esta Seleção não nasceu num dia. Não nasceu numa concentração. Não nasceu numa final.
Nasceu nos clubes.
Nasceu nos pavilhões frios onde os treinadores formam jogadores sem câmaras. Nasceu nos dirigentes que resistem com orçamentos curtos. Nos preparadores físicos, nos fisioterapeutas, nos analistas, nos coordenadores de formação. Nos pais que levam os filhos aos treinos. Nos árbitros que sustentam a competição. Nos adeptos que enchem bancadas sem glamour.
O futsal português é uma rede invisível de gente que insiste.
Cada clube, cada escalão, cada distrito - todos são tijolos daquilo que hoje é Portugal nas decisões europeias.
Quando Jorge Braz fala em “recuperar duas taças”, ele não fala só pela Seleção. Fala por todos os agentes do futsal português. Fala por quem constrói talento. Fala por quem acredita que o jogo é mais do que um resultado.
A tenacidade desta equipa não vem apenas da qualidade técnica. Vem da cultura. Vem da exigência diária nos clubes. Vem da formação que ensina a perder e a levantar. Vem da humildade de quem sabe que o topo é frágil.
Portugal foi vice-campeão europeu. Mas continua a disputar títulos. Continua a estar lá. Continua a incomodar. E isso não é acaso.
É identidade.
Jorge Braz não é apenas um selecionador. É um guardião dessa identidade. Um líder que não promete vitórias fáceis - promete trabalho. Promete regresso. Promete que o passado não serve de refúgio.
“O passado não conta.”
Conta o que se faz a seguir.
E se há algo que este Europeu mostrou, mesmo na dor, é que o futsal português não vive de ciclos fechados. Vive de continuidade. Vive de exigência. Vive de gente que sente a camisola como extensão da pele.
Há títulos para recuperar.
Há orgulho intacto.
Há uma geração que não foge quando dói.
E há uma liderança que não grita - mas fica.
E quando uma liderança fica, o futuro não se desmorona.
Constrói-se.