Do autogolo ao “avalanche”: Portugal virou com critério e atropelou na segunda parte



Portugal carimbou o apuramento para as meias-finais com um 8–2 frente à Bélgica, num jogo que começou com um susto e acabou numa demonstração de controlo, eficácia e capacidade de acelerar quando o jogo o pediu. A Bélgica chegou personalizada, agressiva e com coragem para disputar o encontro, mas Portugal foi superior naquilo que decide jogos a eliminar: interpretação dos momentos, gestão emocional e execução no detalhe.

O arranque foi todo de Portugal, com pressão alta, várias finalizações e um guarda-redes belga inspirado a segurar o nulo. Ainda assim, o primeiro momento-chave foi contra a corrente: aos 8’06’’, num lance iniciado por Rahou após lançamento lateral de Vrancken, o belga ultrapassa André Coelho e mete a bola na direcção da baliza; sob pressão de Aabbou, Pany Varela acaba por desviar para a própria baliza. 0–1 e, de repente, Portugal foi obrigado a provar que conseguia transformar volume em clareza.

A resposta foi imediata e consistente. Portugal não perdeu identidade, aumentou o ritmo de circulação e passou a encontrar melhor o corredor central, com Diogo Santos a ser o principal acelerador. O segundo momento-chave surge aos 12’47’’: Diogo rompe pelo meio e, com o exterior do pé, solta em Afonso Jesus; este cruza em diagonal para o segundo poste e Bruno Coelho encosta para o 1–1. Um golo de ocupação perfeita do espaço e de ataque ao segundo poste, típico de equipa que sabe onde quer chegar.

A partir daí, Portugal começou a fixar com mais qualidade e a Bélgica foi perdendo metros. O terceiro momento-chave chega aos 16’38’’, num golo de execução: Pany toca em Erick, este pisa e devolve, e Pany arma um remate potentíssimo que entra junto ao ângulo superior. 2–1, cambalhota completa e sinal claro de que Portugal já tinha encontrado o ritmo do jogo. Logo depois, Qoli vê amarelo (17’32’’) — um detalhe disciplinar que traduz a dificuldade belga em chegar a tempo às zonas de duelo.

Ainda antes do intervalo, Portugal fechou a primeira parte com um golo que é quase um manifesto de identidade coletiva. O quarto momento-chave acontece aos 19’09’’: posse longa, bola a circular por vários pés, Pany encontra Erick e Erick descobre André Coelho ao segundo poste para encostar. 3–1 ao intervalo, num lance que mostra a Bélgica a ser puxada, bascular, e a chegar sempre tarde ao espaço de finalização. Pelo meio, Portugal podia ter matado o jogo: aos 19’27’’ Bruno Coelho falha um livre de 10 metros, defendido por Vrancken. Esse foi o momento-chave silencioso: manteve a Bélgica viva em teoria, mesmo que Portugal estivesse por cima.

A segunda parte abriu com Portugal a fazer aquilo que as equipas grandes fazem quando cheiram fragilidade: transformar a vantagem em território. O quinto momento-chave chega aos 22’47’’, num lance de bola parada trabalhada: Bruno Coelho repõe para a área “por entre dois” e Rúben Góis encosta para o 4–1. A Bélgica tentou reagir subindo linhas, mas isso abriu o jogo para a principal arma portuguesa: transição curta, definição rápida e qualidade na finalização.

Aos 25’10’’, aparece o sexto momento-chave e o primeiro golpe no “jogo partido”: recuperação, transição rápida, Pauleta assiste e Pany, na esquerda, remata rasteiro e cruzado para o 5–1. A Bélgica acusou e Portugal continuou a castigar o espaço. Aos 28’23’’, Lúcio Rocha trabalha, ajeita para o pé direito e remata rasteiro e cruzado para o 6–1, um golo que confirma que Portugal já jogava em modo controlo total.

A Bélgica ainda tentou reentrar pelo 5 para 4. Aos 32’56’’, no sétimo momento-chave, Aabbou finaliza no ataque com guarda-redes avançado e reduz para 6–2, mas Portugal respondeu com maturidade: defendeu bem o 5x4, não se desorganizou e esperou o momento para matar o jogo em transição. E matou.

No último minuto, Portugal foi impiedoso. Aos 39’42’’, contra-ataque, combinação com Lúcio Rocha, o remate é desviado pelo guarda-redes e a bola sobra para Pauleta fazer o 7–2. Segundos depois, aos 39’59’’, mais um ataque rápido e Pany chega ao hat-trick, fechando o 8–2 e uma exibição que começou com um erro, mas terminou com superioridade esmagadora.

Portugal não venceu apenas porque marcou muito. Venceu porque, depois do autogolo, foi melhor em tudo o que não aparece num “highlight”: controle do risco, leitura da altura certa para acelerar e uma eficácia que fez a Bélgica perder o jogo em blocos de dois-três minutos. E agora, nas meias-finais, terá um teste fascinante: França, a potência emergente que também chega carregada de confiança.

Figura do jogo: Pany Varela

Começou ligado ao (ag) que colocou a Bélgica na frente, mas respondeu como os decisivos respondem: três golos, impacto nos momentos de rutura e capacidade para transformar um jogo nervoso num jogo controlado. Quando Portugal precisou de alguém para meter o jogo no sítio, foi Pany quem o fez.


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