Duelo Portugal vs Bélgica - Nos quartos, o erro já não avisa.
Portugal entra nos quartos-de-final a saber exatamente o que não pode voltar a fazer.
No domingo, às 15hoo de Lisboa, joga em Ljubljana, a Seleção Nacional apresenta-se como campeã europeia em título. Do outro lado estará a Bélgica, que atinge esta fase pela primeira vez desde que chegou às meias-finais da edição inaugural, em 1996. Um dado histórico que ajuda a explicar muito do contexto: não há peso recente, não há obrigação, há liberdade. E em jogos a eliminar, isso torna qualquer adversário mais incómodo.
É um jogo onde o estatuto não resolve por si. Resolve a forma como se joga.
Portugal fez uma fase de grupos perfeita nos pontos, mas não totalmente limpa nos sinais. Frente à Polónia venceu, mas foi menos rigoroso: menos pressão à bola, menos controlo da posse, mais precipitação ofensiva. O mais relevante não foi o resultado — foi o reconhecimento interno do que aconteceu.
Erick Mendonça foi direto no pós-jogo. Não falou de surpresa nem de azar. Falou de conforto, de concentração abaixo do habitual e de menor reação à perda. Quando uma equipa identifica isso em voz alta, o jogo seguinte deixa de ser igual. Aquilo que é reconhecido raramente se repete da mesma forma.
E há um enquadramento que muda tudo: em jogos de quartos-de-final, não há tempo para corrigir em jogo aquilo que se entra a fazer mal.
O aviso estava dado
Antes mesmo desse encontro, Joel Rocha, treinador do SC Braga, tinha deixado uma leitura simples e esclarecedora: equipas sem pressão classificativa jogam soltas, sem medo, e tornam-se perigosas exatamente por isso. A Bélgica encaixa nesse perfil e os números confirmam-no.
Apesar de apresentar a defesa mais batida do torneio, a Bélgica chega aos quartos-de-final com o terceiro melhor ataque do Europeu. É uma equipa que aceita correr riscos, que vive bem em jogos abertos e que cresce quando o jogo entra num registo emocional. Não é por acaso que marca muitos dos seus golos nos últimos dez minutos (31’–40’), quando o adversário acelera fora de tempo ou perde controlo.
A Bélgica que muitos não viram
Para quem não acompanhou o Grupo C, importa contextualizar. A Bélgica é uma equipa reativa, vertical e emocional, construída para o momento e não para o controlo prolongado.
Defensivamente, baixa linhas com rapidez, fecha o corredor central e aceita viver sem bola durante períodos curtos. Não pressiona alto de forma contínua; prefere condicionar, provocar a perda e acelerar imediatamente após a recuperação.
Ofensivamente, aposta quase sempre na transição curta. Poucos passes, condução agressiva e decisão imediata. Não há grande elaboração. Há intenção.
O centro desse jogo é Omar Rahou. Marcou 6 dos 11 golos da Bélgica no torneio e é o jogador do Europeu que mais faltas comete e mais faltas sofre. Um retrato claro do seu impacto: joga no limite, provoca contacto, acelera decisões e empurra o jogo para um plano físico e instável. Quando recebe de frente e com espaço, é decisivo. Quando é obrigado a receber de costas e longe da baliza, o impacto diminui e a Bélgica sente isso.
O torneio também mostrou o limite desta equipa. Frente à Espanha, ficou claro que quando o adversário alonga ataques, varia ritmos e decide por dentro de forma consistente, a Bélgica perde referências. Não por falta de coragem. Por falta de margem.
Onde o jogo se decide
A Bélgica sofre quando é obrigada a defender durante mais tempo. Portugal pode ferir se aumentar o tempo de posse, fizer a bola circular e obrigar o adversário a decidir várias vezes dentro do mesmo ataque.
Este não é um jogo para ataques curtos e precipitados. Cada finalização fora de tempo aproxima o jogo do registo belga. Pelo contrário, quando Portugal pausa, atrai e acelera apenas no momento certo, começa a encontrar espaços por dentro e situações de finalização com bola dominada.
Mas há uma condição essencial: proteger a reação à perda, sobretudo na reta final do jogo. A Bélgica vive da transição curta e é especialmente perigosa nos últimos minutos. Cada perda sem cobertura próxima é convite direto à aceleração adversária.
Gerir Rahou faz parte desse equilíbrio. Ferir a Bélgica passa por retirar-lhe tempo e espaço, obrigando-o a pensar mais do que gostaria. Sempre que isso acontece, o jogo abranda e aproxima-se do território português.
Profundidade portuguesa
Do lado português, há um dado silencioso, mas decisivo: a variabilidade ofensiva. Portugal não depende de um nome nem de um momento específico para marcar. Os golos têm surgido de diferentes zonas, em diferentes contextos e através de vários jogadores.
Ainda assim, há margem por explorar: Tiago Brito, Afonso Jesus e Pauleta ainda não marcaram neste Europeu, tal como os dois guarda-redes. Não é um sinal de carência é um sinal de profundidade. Num jogo a eliminar, onde o adversário tenta fechar caminhos óbvios, a capacidade de decidir através de diferentes protagonistas pode ser o detalhe que desequilibra.
As soluções estão lá
Jorge Braz tem respostas para diferentes momentos do jogo.
Há um quarteto mais energético e imprevisível - Afonso Jesus, Kutchy, Diogo Santos e Lúcio Rocha - capaz de subir o ritmo, pressionar mais alto e explorar os espaços.
Há um quarteto de controlo - Tomás Paçó, Pauleta, Bruno Coelho e Góis - pensado para estabilizar, alongar ataques, organizar e dar profundidade com pivô.
E há ligações de decisão - André Coelho, Pany Varela, Tiago Brito e Erick - onde leitura, qualidade individual e variabilidade de jogo, resolvem.
O jogo não passa por trocar nomes. Passa por escolher o comportamento certo no momento certo.
O custo de avançar
Nas meias-finais já espera a França, consciente de que o nível de exigência sobe e de que jogos como este deixam lições que valem tanto quanto a própria vitória. Os franceses garantiram a presença após vencerem a Ucrânia por 4-2, apenas no prolongamento, num encontro duro, físico e emocional, que testou limites até ao fim.
Pelo caminho, perderam Abdessamad Mohammed, expulso durante o jogo, uma ausência que condicionará opções e gestão na próxima fase. Um dado que reforça a ideia central deste Europeu: a partir daqui cada decisão pesa, cada erro cobra e ninguém passa sem pagar um preço.
O essencial
Este é um jogo onde Portugal tem de ser competente durante 40 minutos.
Competente na entrada.
Competente na gestão do ritmo.
Competente, sobretudo, nos últimos dez minutos, onde a Bélgica mais acredita e mais cresce.
A Bélgica vai tentar levar o jogo para um registo rápido e emocional. Portugal tem de conviver com isso sem se desorganizar e sem abdicar do controlo da posse.
Mais do que talento, este jogo exige maturidade competitiva: saber quando acelerar, quando pausar e quando não assumir riscos desnecessários.
Portugal não precisa de resolver cedo.
Precisa de não oferecer nada.
O aviso já foi dado. Agora, é um jogo de quartos-de-final. E esses não perdoam.
Carlos Simões, Treinador de Futsal – Nível III