Jorge Braz: “O passado orgulha-nos, mas só o presente ganha jogos”
Trinta anos depois do primeiro Campeonato da Europa de futsal, Portugal volta a entrar numa fase final carregando um estatuto que pesa menos do que parece — pelo menos para quem lidera. Bicampeã europeia, a Seleção Nacional ruma a Ljubljana com uma geração renovada, estreantes em fases finais, ausências marcantes e um discurso que recusa viver do passado.
Antes da partida para a Eslovénia, Lituânia e Letónia, Jorge Braz sentou-se à conversa com Carolina Couto. O resultado é uma viagem profunda pela identidade desta equipa: a forma como lida com o erro, com a ausência de João Matos, com a lesão de Zicky, com a entrada de Ruben Góis, com os guarda-redes, com Itália logo a abrir — e, acima de tudo, com a ideia de que competir é um ato presente, não um memorial.
A entrevista
Carolina Couto:
Míster, começo por lhe perguntar: que peso tem a palavra bicampeão?
Jorge Braz:
Não… não tem peso.
Tem uma carga emocional, claro, de orgulho do passado, do que fizemos, do que temos vindo a fazer. Mas o desporto ensina-nos algo muito importante: só conta o presente. Só conta o momento.
O que é que nós fazemos todos os dias para que, no momento em que competimos, estejamos bem? Estejamos preparados?
Cada campo é diferente. Cada competição é diferente. Cada momento é diferente.
Nós temos é de estar preparados, motivados, com aquela ambição que nos caracteriza, bem afinada, para quando chegarmos a Ljubljana, no primeiro jogo.
Responsabilidade? Essa temos sempre. Sempre. Todos os jogos são para vencer. Todos.
As memórias de bicampeões orgulham-nos muito, mas fazem parte do passado. Agora temos de viver o presente de forma muito convicta para estarmos preparados para este futuro imediato que aí vem.
Carolina Couto:
O primeiro jogo de uma fase final traz sempre alguma ansiedade. Começar logo frente à Itália traz algum problema acrescido?
Jorge Braz:
Não. Não traz.
Aliás, ainda bem.
É se calhar o adversário que mais ambiciona também passar o grupo. Começar assim coloca-nos logo em alerta máximo. Este é o contexto para onde vamos.
Seja o que for, é isto. Eu lembro-me do último Europeu: começámos com a Sérvia, tínhamos jogado contra eles no Mundial, de repente estávamos a perder 2-0… relaxámos, não sei… já nem me lembro bem.
Mas este é o registo. Vamos para uma competição onde sabemos que o nível é andar lá em cima, tocar nos nossos limites, ultrapassá-los. Começar logo com a Itália motiva-nos ainda mais. Espicaça-nos. É dizer: isto começa já, alerta total, sermos nós.
Estes jogos é que são bons. Jogos de enorme dificuldade, de adversidade. É isto que nós gostamos.
Eu até prefiro começar assim.
Também não gosto de coisas fáceis.
Carolina Couto:
Há um nome na Itália com ligação forte a Portugal: Alex Merlim. Como se prepara um jogador assim?
Jorge Braz:
(risos)
Esses segredos não posso contar.
Mas há sempre duelos. Já houve tempos em que se chamava a isto “aparelhos de confronto”. Hoje olho mais para isto do ponto de vista coletivo.
Uma equipa é todos cumprirmos bem a função e protegermo-nos uns aos outros.
Agora… os bons fazem coisas fora da caixa. Arriscam. Decidem. E ao arriscar, erram.
E a questão é: como é que até os levamos a ir para aí? Porque o erro vai aparecer. Vai. Já lá vai o tempo em que não pode haver erro. Vai haver erro.
Nós assumimos isso. Queremos é que a taxa seja menor. E quando o erro acontece, sabemos corrigi-lo, ultrapassá-lo. Isso é que faz uma equipa forte.
Fomos campeões da Europa com erros. Corrigimos. Sacrificámo-nos todos coletivamente para ajudar quem errou.
Errou? Já passou. Faltam 30 minutos. Temos de marcar dois. Não é uma catástrofe.
Carolina Couto:
Este Europeu marca a primeira fase final sem João Matos. Que conversa teve com ele?
Jorge Braz:
Com o João… quase nem é preciso conversa.
Mas claro que houve. Sempre houve.
Fiz isto pouquíssimas vezes na carreira. Falei com o Benedito. Falei com o Arnaldo quando não foi à Colômbia. E falei agora com o João.
Em setembro já lhe tinha dito que lhe ia dar folga. Isto é respeito por capitães, por gente que fez muito por isto.
O João é especial. Foram muitos anos juntos. Ajudou-me muito a ser treinador, a ser quem sou hoje.
E atenção: não terminou nada. Tem a época toda no clube, vai ajudar muito ainda. Tem títulos para defender. Não este, mas outros.
Foi agora o momento. Nesta fase. E a decisão foi esta.
Admito: um João muito especial.
Carolina Couto:
Zicky é uma grande ausência. Entra Ruben Góis. Pode haver um peso acrescido?
Jorge Braz:
Não tinha pensado nisso. Espero bem que não.
O Góis tem uma coisa gira: “bota cá a bola que eu jogo”. Mostra-se. Quer receber. Quer virar. Quer. Sempre foi assim. Desde os sub-19.
Falhou o Europeu sub-19 por lesão. Depois teve um calvário. Não teve uma vida fácil. Se calhar esse calvário deu-lhe maturidade mental. Fez-lhe perceber o que queria.
O potencial sempre esteve lá. Agora percebeu que quer muito.
Aqui ninguém é igual a ninguém. Aproveitou bem cada momento connosco. Mostrou maturidade para competir de forma positiva, saudável, dentro da nossa identidade.
Não lhe demos oportunidade nenhuma. Ele ganhou-a.
Carolina Couto:
Na baliza, Edu e Bernardo Paçó. O Bernardo tem a valência de subir com bola. É uma inovação?
Jorge Braz:
(risos)
Mais um segredo…
Mas sim, o Bernardo tem essa valência. E atenção: o Edu também, de outra forma, pela calma na decisão.
Agora, isto nunca é individual. É coletivo.
Como é que criamos comportamentos para que isso aconteça no momento certo? Se quisermos usar, temos de o preparar.
O jogo caminha cada vez mais para aí.
Carolina Couto:
Que mensagem deixa aos portugueses?
Jorge Braz:
Podem estar confiantes.
É uma satisfação brutal sentir o carinho das pessoas. Vou às compras e tenho senhoras a dar-me os parabéns. Claro que as vitórias ajudam, mas também é pelo comportamento, pela ambição.
Nós é que somos os mais confiantes.
Não vamos com a pressão de “temos de ser tricampeões”. Eu não tenho de ser tricampeão.
Temos de entrar bem com a Itália. Vencer o grupo. Construir o nosso percurso com ambição, alegria, a gostar do que fazemos.
Vamos lutar com tudo. De forma alegre. É desporto.
Representar o futsal português, o desporto português, este país pequeno que faz coisas fabulosas.
No jogo é desfrutar. No treino é que eu roo unhas.
No jogo é ser feliz. Sofremos muito para depois podermos desfrutar.
Conclusão
A entrevista não deixa slogans. Deixa método. Jorge Braz fala de erro sem medo, de ausência sem dramatismo, de ambição sem arrogância. Recusa o rótulo de tricampeão antes do primeiro apito e devolve à competição o seu lugar natural: o presente.
Portugal parte para o Europeu com um passado glorioso, mas com uma ideia ainda mais clara — não é preciso ser perfeito, é preciso ser Portugal.