Balanço da Taça de Portugal Futsal por Luís Estrela, Licenciado em Treino Desportivo e Treinador de Futsal



Após um fim-de-semana de Futsal de jogos com qualidade muito elevada na componente Masculina e Feminina e fazendo um resumo do que foi observado na “Final Eight” de 2018, este artigo não se irá centrar num balanço dos resultados mas sim convidar a uma reflexão conjunta sobre aspetos chaves que dizem respeito à Modalidade, desde equipas, jogadores e notas na área estratégica do jogo.

 

Equipa da Competição

G.D. Fabril

Apesar de o Sporting Clube de Portugal e o Sport Lisboa e Benfica terem sido os vencedores da Taça de Portugal na componente Masculina e Feminina esta competição fica marcada por uma história de superação competitiva e um feito histórico da equipa comanda por Fernando Paiva (Nana) . Uma equipa que no campeonato esteve permanentemente em luta para conseguir a manutenção, com as dificuldades conhecidas e que na reta final do campeonato não atinge os seus objetivos culminando com uma descida de divisão, com as consequências normais desse facto, conseguir apresentar a qualidade de jogo e intensidade competitiva representa para quem conhece bem as dificuldades do universo desportivo um feito assinalável.

Hoje em dia a componente emocional tem um papel predominante no rendimento desportivo e a capacidade de sofrimento desta equipa sempre me surpreendeu durante esta época, pois todos os seus jogos apresentavam marcas de superação em termos competitivos. Após um campeonato extremamente desgastante, com um grupo algo limitado em termos de opções válidas para permitir uma rotação de quartetos na quadra de forma regular, apresentar a força interior para superar 3 desafios competitivos diferentes em 4 dias todos eles muito desgastantes e conseguir manter toda a chama competitiva julgo que é justo prestar uma justa homenagem a esta equipa e a toda a sua estrutura.

Com um plantel que tem jogadores interessantes mas faltando claramente elementos defensivos de qualidade que permitissem um equilíbrio maior para superar os sectores atacantes adversários, esta equipa conseguiu mesmo assim com as suas armas, apelando à raça, ao querer, aos esquemas táticos, a recuperações de bola valiosas transformadas em transições ofensivas perigosíssimas ser uma equipa muito eficaz superando uma equipa valiosa do Farense Futsal, a equipa do Módicus recheada de um plantel riquíssimo e dando uma réplica interessante a um Sporting Clube de Portugal que é só o Vice-Campeão Europeu e apresenta uma qualidade de jogo extremamente difícil de contraria.

 

Esquema tático da competição.

Fora Ofensivo- Sporting Clube de Portugal

Observando esta competição, diversos esquemas táticos foram observados e que conseguiram ser muito eficazes, tanto em produzir situações de finalização através de livres, cantos ou foras ofensivos ou em saídas de pressão com movimentações dinâmicas de qualidade quer em foras defensivos. A importância destes momentos é determinante pois permite dotar uma equipa de armas que se revelam determinantes no resultado final, quer na produção de lances para finalizar quer na saída de bola com qualidade em situação de pressão do adversário.

 Várias vezes a equipa de Nuno Dias apresentou um fora ofensivo que surpreendeu as equipas adversárias:

1- Colocando se numa estrutura de losângulo, o fora ofensivo era marcado por um jogador possuidor de um remate forte de meia distância para o seu colega de equipa na posição de Fixo que efetuava um passe para a ala contrária.

2- Nessa mesma ala contrária era efetuada uma troca ala-pivot, direcionando a movimentação do ala para o corredor central com a segunda intenção de efetuar um bloqueio na zona central.

3- O pivot recebia a bola no ala contrária onde o fora foi marcado e assistia de primeira o jogador que marcou inicialmente o fora ofensivo com o pé mais forte, conseguindo efetuar um remate no corredor central perfeitamente enquadrado com a baliza e com grandes possibilidades de êxito.

 Apesar de não ter conseguido traduzir em golo, o sucesso da movimentação permitiu vários remates enquadrados e coloca grandes dificuldades nas equipas contrárias pois a defesa fica demasiado focada no movimento da bola e os jogadores ofensivos sem bola deslocam se com muita qualidade permitindo o sucesso da movimentação e a possibilidade de um remate enquadrado.

 

Intensidade competitiva ou Empurrão para um desporto de combate.

O Futsal tem na sua essência um princípio de desporto coletivo que é necessário respeitar e todos os agentes da modalidade devem refletir sobre que caminho pretendemos para a nossa Modalidade. Muitos anos atrás quando se jogava futebol de 5 ou futebol de salão quem o praticava nos ringues e posteriormente nos pavilhões sabia que tinha espaço para colocar a sua técnica em prática e a mesma era respeitada na quadra. Passamos de não existir limites de faltas para a regra das 5 faltas e as mesmas surgiram para proteger os jogadores mais tecnicistas e a essência da modalidade para não permitir a mesma caminhar para níveis de agressividade demasiado elevados. O que temos observado desde há muitos anos é que passamos de uma situação onde qualquer toque ou contacto era assinalado pelos árbitros como falta para o extremo oposto e um critério demasiado largo. Neste momento observamos faltas ostensivas atrás de faltas não assinaladas, explicando esse fator em nome do critério largo e da tentativa de apitar consoante o que é observado noutros campeonatos ou em competições internacionais.

 Estão a acontecer dois momentos chaves que estão a retirar espetacularidade na modalidade de Futsal transformando um jogo fantástico em algo extremamente penalizador para os jogadores mais fortes tecnicamente.

1- O jogador que joga a Pivot quando a bola vai no ar ou pelo chão na sua direção, está permanentemente a ser deslocado em falta pelo seu opositor, não é uma luta por posição, é sim carga ostensiva para o retirar de jogo. É evidente que por vezes o próprio Pivot tentar ganhar posição e acaba por dar um primeiro contacto no seu opositor para conseguir ter espaço para receber a bola de costas, mas reduzidas vesses isso acontece, enquanto o cenário inverso está cada vez mais presente no nosso jogo com cargas permanentemente desproporcionadas de sentido. Os jogadores que jogam a fixo estão permanentemente a empurrar e a carregar sobre os seus adversários com a permissividade dos árbitros pois raramente essa ação é assinalada em falta, dando lhes uma vantagem psicológica enorme e impedindo várias ações ofensivas de qualidade.

2- O jogador de Futsal que tem a bola controlada de costas, por exemplo na ala é permanentemente empurrado ostensivamente, sofrendo cargas pelas costas que o impedem de se conseguir equilibrar com bola. Verificamos faltas atrás de faltas e a mesma raramente é assinalada, chega se ao ponto de ter a bola controlada de costas e os braços do defesa estarem sempre a procurar puxar o braço do jogador adversário. Quem nunca jogou, não compreende que esse contacto invalida um equilíbrio na quadra e reduz a possibilidade de se movimentar corretamente em campo, desequilibra e retira eficácia na nossa movimentação corporal.

3- O jogador tem a bola no seu meio campo defensivo, entrega a bola ao seu colega e faz um movimento de rotura na direção do campo adversário é sistematicamente empurrado com os dois braços ou agarrado, reduzindo a sua velocidade sem bola e colocado sistematicamente fora de hipótese de ganhar as costas adversárias.Este contacto está sempre a ser aplicado pelas defesas altas pressionantes que abusam neste movimento defensivo, sabendo da complacência perante tal ação e retiram qualidade ao jogo ofensivo adversário transformando esta modalidade técnica em algo muito mais físico, reduzindo assim a sua espetacularidade.

Concordo que é importante dar espaço para um aumento dos duelos individuais defensivos e adequar os critérios com a intensidade de outros campeonatos europeus competitivos, mas a intensidade competitiva e a recuperação da posse de bola não pode ser obtida em falta permanente. O Futsal não é basquetebol onde supostamente não se é permitido o contacto defensivo, mas é uma modalidade técnica e o que temos observado é que o jogo está constantemente a transformar se numa batalha física, superando o plano técnico do jogo.

Em termos de espetáculo o que queremos observar nos pavilhões ou na televisão? Um jogo técnico ou uma batalha pela posse de bola, valendo quase tudo? Estamos a contribuir para aparecer novos Ricardinhos com a sua qualidade individual ou a retirar lhes o espaço para poderem produzir os seus “skills” ? O jogador de futsal está a tornar se mais físico ou mais técnico ?

Deve existir intensidade defensiva e contacto, mas o mesmo não pode ser impeditivo de o jogador em posse de bola colocar a sua qualidade de jogo. Passamos rapidamente do 8 ao 80 nos duelos defensivos e estão a colocar em causa a magia do jogo e a direção que o mesmo caminha.

Vários Treinadores já se referiram a esta questão, o próprio Ricardinho já desabafou que o Futsal está cada vez mais parecido com o Futebol de 11 e a perder espaço para produzir os desequilíbrios ofensivos pois os defesas tem uma margem de manobra demasiado elevada para retirar o seu opositor da jogada.

 

Ação técnica da competição – Passe em diagonal ala a ala

Quando um jogador recebe a bola na ala e apresenta se pressionado pelo seu marcador e o seu apoio defensivo não está liberto foi notório na competição deste fim-de-semana que muitos jogadores optaram como elemento para conseguir progredir no terreno o passe ala a ala mas em diagonal para sair da pressão atacante e conseguir assim respirar e progredir no terreno.

Com os pés fortes direcionados para o centro de jogo é possível realizar este movimento e sair de uma situação de risco ou de aparente facilidade para se perder a posse de bola.

Deve se então trabalhar de forma sistémica, esta ação passe e receção, pois ela em contexto de jogo está a permitir várias vezes as suas equipas conseguirem encontrar zonas de entrada na defensiva contrária e dar continuidade à jogada ofensiva.

 

Jogador surpresa da competição.

Vários jogadores tiveram um nível altíssimo nesta competição como Merlim, Márcio Sousa, João Matos, Coelho, Yulian,Fábio Cecílio, Fassy, Fernandinho, Fábio Lima, Sara Ferreira, Janice, Fifó, Pisco e tantos outros que estiveram a um grande nível mas hoje vamos abordar as características de André Silva Pivot do G.D. Fabril.


Competição Masculina- André Silva – G.D. Fabril

Apesar de não somar muitos minutos de utilização André Silva revelou no tempo utilizado um rendimento muito interessante e características muito ricas para a posição de pivot que ocupa.

1- Excelente capacidade para reter a bola de costas e esperar pelo apoio dos colegas.

2- Boa capacidade de finalização, utilizando bem o seu corpo para quase sempre rodar para o seu lado direito e rematar espontaneamente sem necessitar de olhar para a baliza criando dificuldades na defesa dos seus remates.

3- Possui uma capacidade física muito assinalável suportando as cargas adversárias com a bola controlada.

4- Consegue decidir bem no momento do passe para os colegas tendo facilidade na execução dessa sua ação técnica quer com o melhor pé quer com o pé esquerdo o que permite à sua equipa entregar lhe a posse de bola e a mesma ter continuidade.

5- Revela controle emocional e capacidade para suportar jogos de alta intensidade, revelando eficácia nas suas tarefas individuais e coletivas.

6- Defensivamente é um jogador muito intenso mas deve melhorar a sua abordagem defensiva, não ir tanto à queima com os jogadores adversários mais tecnicistas para não ser ultrapassado.

7- Jogador Português com um crescimento evolutivo muito interessante nesta época, numa posição específica apresenta qualidades interessantes. Depois de Joel Queiroz e Cardinal, André Silva junta se na minha perspetiva a Tunha, João Silva, André Galvão (Viseu), Pacheco (Fátima/Olho Marinho), Kiko (A.D. Fundão) e tantos outros para uma posição que considerávamos que não existiam soluções válidas no Campeonato Português.

 

Competição Feminina - Sara Ferreira – Sport Lisboa e Benfica

A capitã encarnada de 25 anos fez uma prova muito interessante e tendo um rendimento regular e determinante para a conquista do troféu para a sua equipa.

1- Jogadora que apresenta se a um nível de maturação cada vez mais elevado conseguindo balançar muito bem as suas qualidades individuais ao serviço do coletivo.

2- Possui argumentos técnicos que são essenciais para esta modalidade, habilidade natural em progressão com a bola, consegue ter argumentos para ultrapassar as suas adversárias no 1vs1 e apresenta na sua imprevisibilidade em termos de fintas um perigo a todos os momentos para as suas adversárias.

3- Apresenta bom remate de meia distância e aplica o seu remate de forma natural e sem denunciar muito o seu gesto técnico conseguindo fugir dessa forma aos cortes da defesa contrária.

4- Melhorou imenso a sua eficácia defensiva, não sendo ultrapassada com facilidade e conseguindo vários roubos de bola por jogo.

5- Apresenta excelente visão de jogo e normalmente decide bem sobe pressão, conseguindo cada vez mais com o seu passe criar roturas nas equipas adversárias.

 

Com uma evolução gradual e a competir pela equipa encarnada à muitos anos, Sara Ferreira possui neste momento um rendimento de jogo muito elevado, conseguindo ser eficaz nos seus momentos ofensivos e defensivos.

 

Balanço da competição

1- Excelentes jogos observados tanto na vertente Masculina como Feminina com alternâncias constantes no marcador.

2- Espaço para os Treinadores anteciparem os desafios que iam tentar superar, boas entrevistas após os jogos com capacidade de análise tática do que foi observado em contexto de jogo.

3- Os jogadores tiveram oportunidade antes do jogo e depois do jogo de expressar se e dar voz ao que sentiram e à sua visão da competição.

4- Cobertura mediática da competição excelente com uma boa capacidade de divulgação dos órgãos de comunicação.

5- Análise em termos dos valores funcionais de cada jogador para um estudo e monitorização das capacidades motoras dos atletas e correta caracterização dos esforços praticados no desempenho da modalidade.

 

Existiu a festa da Taça de Futsal e isso foi o mais importante, parabéns a todos os intervenientes diretos e indiretos.

Luís Estrela – Licenciado em Treino Desportivo e Treinador de Futsal




Vídeos



Nun’Álvares/IESFafe "É um clube diferente, unido e que movimenta centenas de pessoas.”
Bastidores da Final 8 da Taça de Portugal | “No coração do futsal”
Meia-Final | Super Liga Russa | 15:00h | Tyumen - Sibiryak
Meia-Final | Super Liga Russa | 14:30h | Gazprom-Yugra - Sinara
Os melhores golos dos Quartos de Final, Jogo 1, da Liga SportZone
Calendário das partidas do Fim de Semana
Sparta Belfast vence Taça na Irlanda do Norte
Miguel Albuquerque "O Nuno, é o rosto da liderança deste projeto"
Os melhores golos da Final Eight da Taça de Portugal
Os melhores golos da Taça de Portugal Feminina